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Coluna Partida de Frida Kahlo

Tire suas frases motivacionais do caminho, que eu quero passar com a minha dor

A escrita é minha via para alcançar os outros. Escrever sempre foi um meio de transferir-me. Um ato de entrega. A cada palavra um ato de doação. Escrever é não esperar nada em troca: é lançar-se [queda-livre] ao encontro do outro. Por vezes, sinto-me mesmo como a escritora Anais Nïn, ao tomar consciência de que meu corpo converteu-se em uma bonita gaiola, da qual eu só consigo escapar escrevendo. Escrever é transcender-se. É estar presente no mundo [mesmo quando destacada de si mesma].

No entanto, há um tempo, percebi que a experiência da dor física é silenciosa. Dela não se escapa com o verbo. A agonia de um corpo não tem nada da gloriosa dor dos amantes ou poetas. Não escapa em lágrimas entre um verso e outro, entre um beijo e outro, entre um e outro! A gota d’água da dor desconhece a intersubjetividade: é solitária.

A dor física é um feio conteúdo amorfo, sem contornos, a lembrança latejante da matéria, da miséria humana, da realidade – por vezes – impenetrável do corpo. É o poder alquímico de sorrir acima de toda a química, e a vontade de gritar para quem estiver ao lado: “Por favor, me salva!” É, de repente, querer pedir um abraço – mesmo a um estranho -, porque a sensação de fragilidade inunda de uma solidão carente de humanidade! É querer olhar nos olhos [sem razão], só para encontrar a ausência da dor no olhar alheio!

É carregar os sonhos de criança e tentar lembrar as verdades da infância: o que eu “queria ser quando crescesse”? E tentar ser aquela que você queria ser, antes de saber-se confinada a um corpo! É se libertar diariamente da ideia de não ser livre e, por essa via, sujeitar suas limitações à liberdade de ser você mesma!

A dor física é silenciosa. Não diz nada e ao mesmo tempo diz tanto sobre a força de quem a possui!

Sim, haverá dias sem palavras! Dias em que não há pontes que nos levem aos outros, só muros! Aliás, encontrei na Hannah Arendt uma descrição tão precisa dessa experiência:

“De fato, o sentimento mais intenso que conhecemos – intenso a ponto de eclipsar todas as outras experiências, ou seja, a experiência da grande dor física – é, ao mesmo tempo, o mais privado e menos comunicável de todos. Não apenas por ser, talvez, a única experiência à qual somos incapazes de dar forma adequada à exposição pública; na verdade, ela nos priva da percepção da realidade a tal ponto que podemos esquecer esta última mais rápida e facilmente que qualquer outra coisa. Não parece haver uma ponte que ligue a subjetividade mais radical, na qual eu já não sou identificável ao mundo exterior da vida. Em outras palavras, a dor, que é realmente uma experiência limítrofe entre a vida, no sentido de ‘estar na companhia dos homens’ (…), e a morte, é tão subjetiva e alheia ao mundo das coisas e dos homens que não pode assumir qualquer tipo de aparência”.[1]

Justo eu que sempre quis ser a extensão até os outros.
A dor física, por vezes, interrompe! Mas, em vocês, eu serei a continuidade!

_________

REFERÊNCIA

[1] ARENDT, Hannah. A Condição Humana. trad. de Roberto Raposo. posfácio Celso Lafer. 10 ed. Rio de Janeiro: Forense Universitária, 2007, pp. 60-61. 

 

Fractalidade

(Como Mandelbrot) Em quantas escalas eu me revelo Em todas elas você me enxerga Eu, infinitas versões minúsculas de todas as vozes que não calo. (Como Tolstoi) Em quantas vidas eu desespero, Poder amar toda a humanidade Eu, um espanto, um tumulto, de tudo aquilo que não falo. (Como Frida) Em quantas biografias eu exaspero, Poder ser esse remoinho de cores Eu, um eu-nosso-corpo dolorido de todo o peito esfacelado. (Como Hilda) Em quantas maneiras eu me devoro, Um esse passado que sai murcho Eu, padrões nada geométricos de uma vida curvilínea e torta.  

 
DICA DA SEMANA

Frida - Filme

Já que estamos falando de dor, eu indico essa semana o filme sobre a vida da conhecidíssima pintora Mexicana Frida Kahlo, já que talvez ela seja um dos maiores exemplos de alguém que transformou sua dor em algo esplêndido. O filme está disponível na plataforma Netflix

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