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O VIRAL É A VERDADE – Parte II

Em coluna anterior, eu propus um exercício imaginativo [e se o facebook fosse um bar?] com o intento de veicular uma ideia central: redes sociais não são locais neutros de propagação de ideias. Pelo contrário, o modelo de negócio subjacente a tais plataformas é pautado em estímulos positivos e negativos voltados à alteração comportamental dos seus usuários.

A partir de tal premissa, vimos que a ampla disseminação nesses ecossistemas de discursos paranoicos, fantasiosos e de ódio não parece ser um dano colateral da atuação maliciosa de certos agentes, mas acaba sendo parte fundamental das engrenagens das redes sociais: essas máquinas de manipulação de comportamentos.

Em complemento ao que já foi dito, não poderíamos deixar de lembrar que tais discursos, hoje em dia, são amplificados não apenas por outras pessoas, mas também por contas falsas (autônomas) controladas por bots [1]. A atuação desse exército de bots nas redes sociais, sem dúvida, tem o seu papel em lançar o debate público à lama.

Sob o ponto de vista ético, idealizadores de redes sociais manifestam o interesse em manter ecossistemas digitais livres de bots e fake news, bem como anunciam medidas voltadas à concretização de tal intento. No entanto, na prática, contas falsas (autônomas) e notícias fantasiosas têm a aptidão de manter usuários de redes sociais conectados por muito tempo, uma vez que, conforme dito na coluna anterior, emoções negativas são mais eficientes em nos manter fisgados.

Dessa forma, essas narrativas e discursos nocivos agem como “cortinas de fumaça” no debate público, lançando nuvem espessa a obliterar as pautas políticas verdadeiramente importantes.

Propostas, debates e ações políticas devem ser performadas tendo-se em mente a retroalimentação dessas máquinas de desinformação, sob pena de acabarmos funcionando como propagadores desavisados de ruído (discursos de ódio, extremistas e desalinhados com a realidade), a despeito de eventuais boas intenções de enfrentar ou se contrapor a uma dada narrativa.

A militância digital não pode ignorar tal fato: não podemos nos fiar a ruídos, enquanto a informação nos escapa e se torna inaudível. Ruídos devem ser ignorados.

Segundo Jaron Lanier, um possível primeiro passo na direção de um debate público de qualidade seria a não utilização de redes sociais pautadas na obtenção de lucros a partir da alteração comportamental de seus usuários.

Na visão do autor, embora tenha sido inicialmente expressão de um ideal techno-hippie de universalidade e acesso igualitário, a gratuidade das redes acabou abrindo espaço para esse modelo de negócio. A partir dessa perspectiva, seria preferível que pagássemos um valor específico pelo uso de plataformas digitais [em modelos que privilegiem a transparência], em vez desse modelo opaco em que a gratuidade esconde o fato de que nós somos o produto.

Para lembrar a anedota da última semana: em vez de frequentarmos o “bar facebook“, em que entregamos nossos dados, nossa privacidade e servimos de cobaias nesse experimento behaviorista, desconhecendo qual é o real preço a ser pago, seria preferível que frequentássemos um bar no qual a entrada dependa de pagamento de valor previamente informado e com o qual nós concordamos.

A fim de atingir tal objetivo, teríamos que lutar contra a tendência de aprisionamento tecnológico (lock-in-effect) e dissipar a ideia de que os benefícios da rede social (conectividade, fácil propagação de pontos de vista, exercício de liberdade de expressão) são invariavelmente acompanhados pelos inconvenientes (perda de privacidade, opacidade, manipulação comportamental, perda de dimensão do debate público etc).

É necessário pensar em ecossistemas digitais voltados à promoção de um debate público de qualidade, à disseminação de informações alinhadas com o conhecimento científico e com a realidade. Sendo assim, devemos primar por ambientes em que ruídos [discursos tóxicos, falsos e, por vezes, criminosos] não sejam amplificados a ponto de nos ensurdecer.

[1] Eu não poderia deixar de indicar aqui, para aqueles que tem twitter, o perfil @BotSentinel, que detecta e rastreia bots, trollbots e contas não autênticas voltadas à disseminação de desinformação.

DICA DA SEMANA

A dica da semana é um vídeo disponível na plataforma Youtube, produzido pela Vox, que aborda a cobertura dos primeiros meses do Governo Trump pela mídia, em contraposição à cobertura feita por comediantes, revelando nuances da dificuldade da grande mídia em responder ao discurso volátil e fantasioso típico do Presidente norte-americano.  

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