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O VIRAL É A VERDADE – Parte I

Imagine se o facebook fosse um bar.

Ao chegar nesse bar, o dono avisa que a entrada é gratuita e que, em vez de pagar para poder usufruir do ambiente, você deve entregar uma série de dados pessoais. Então, ele passa a fazer muitas perguntas, desde coisas triviais relativas à sua identidade até questões muito íntimas como: “No que você está pensando”, ou “com que personagem do Star Wars você se parece”?

A primeira coisa que você faz é, com desconforto, questioná-lo a respeito da finalidade e do destino que será conferido aos seus dados pessoais.

A despeito da resposta evasiva do proprietário do local, você decide entrar, afinal, é onde todos os seus amigos e amigas se encontram nos dias de hoje! O que mais você pode fazer [1]?

Ao entrar, você e seus amigos começam a trocar ideias animadamente.

No entanto, sem que tenham conhecimento, a partir dos dados fornecidos, você e seus amigos são direcionados a determinadas mesas de acordo com os seus posicionamentos e interesses [agrupamento em clusters].

Acontece que o dono do bar, a partir de sua experiência e modelo de negócio, percebeu que emoções negativas são mais eficazes em fazer com que as pessoas passem mais tempo no local. Desse modo, é de interesse do estabelecimento servir você e seu grupo com informações/opiniões que fomentem sentimentos negativos compartilhados – afinal, nada une mais um grupo de pessoas em uma mesa de bar do que expressar um ódio em comum [infelizmente].

Digamos, por exemplo, que o responsável pelo local identifique, em um dos seus amigos, tendências a acreditar em teorias conspiratórias [percebendo que isso é o que faz ele passar muitas horas conversando em uma mesa de bar]. Sabendo disso, as mesas são arranjadas de modo que ele passe a ouvir apenas discursos próximos ou mais extremos do que os seus.

Assim, depois de muito tempo sendo alimentados com versões específicas e dificilmente coincidentes de um mesmo fato, as pessoas estarão insuladas em versões distintas da realidade, a despeito de frequentarem o mesmo local. E o pior. Você não saberá dizer como isso aconteceu, já que não faz ideia de quais informações ele recebeu e em quais pontos elas se distanciam das suas.

O meu objetivo com a anedota acima é evidenciar que redes sociais não são um local neutro de exercício de liberdade de expressão – como uma praça pública ou um palanque -, são primeiro e principalmente máquinas voltadas à manipulação do nosso comportamento.

À primeira vista, essa afirmação parece ter nuances conspiratórias, mas é amparada na visão técnica de que empresas como Facebook e Google funcionam a partir de um modelo de negócio cuja premissa central é a de que haverá terceiros dispostos a pagar pela manipulação do comportamento de certas pessoas e grupos. Daí porque seus algoritmos são voltados a identificar aquilo que nos mantém engajados pelo maior tempo possível. Por essa razão, estão constantemente promovendo auto-ajustes a fim de concluir tal finalidade e, em função disso, são chamados de algoritmos adaptativos.

Outra peça central desse mecanismo é o agrupamento de pessoas com posicionamentos semelhantes realizado algoritmicamente, a fim de facilitar a análise preditiva e a manipulação de comportamentos, uma vez que um grupo de indivíduos é mais facilmente manipulável do que um indivíduo sozinho. Tal fenômeno, na ciência da computação, recebe o nome de clustering.

Nesse contexto, agrupados em clusters, somos diariamente alimentados com versões distintas de um mesmo evento. Por consequência, usuários vão progressivamente perdendo o contato com a realidade [o que, aliás, é um traço comum na adicção].

Além disso, a velocidade e a escala com que falsas percepções são compartilhadas e amplificadas faz com que as percepções sociais da realidade se distanciem de tal forma, até o ponto em que parece que não mais co-habitamos o mesmo planeta. Não há melhor exemplo disso do que o movimento terraplanista.

Em decorrência da disseminação e predominância de visões e percepções tuneladas da realidade, a esfera pública vai, então, desgastando-se e perdendo dimensão. E não parece haver luz no fim do túnel, uma vez que, em grande medida, as formas de argumentação, nesses ambientes, voltam-se à destruição e invalidação do outro enquanto indivíduo [o discurso dos supremacistas brancos é exemplo desse fenômeno].

Estudos na área das ciências cognitivas apontam de maneira contundente para o fato de que sentimentos negativos são mais fáceis de amplificar e aqueles com maior tendência de promover alterações no comportamento. Dito de outra forma, emoções negativas demonstraram-se mais eficientes em promover adicção e mudanças comportamentais significativas – em um nível massivo e escalonável. Não é de se estranhar, portanto, que o debate público na atualidade tenha sido lançado em uma espiral de discursos de ódio e desinformação: outro aspecto que torna este modelo de negócio socialmente desastroso, mas economicamente rentável.

Aliás, mesmo quando temos bons argumentos, buscamos condensá-los em memes e outras mensagens facilmente digeríveis, sem perceber que, por essa via, a despeito de nossas eventuais boas intenções, acabamos reforçando a ideia de que “o que é viral é verdade” [2].

E qual seria a saída? De acordo com Jaron Lanier, autor de “Dez argumentos para deletar a sua rede social agora mesmo”, a gratuidade de ferramentas como o Facebook ou o Google acaba por ser um obstáculo à almejada neutralidade, já que a gratuidade dos serviços faz com que esse modelo de negócio seja invariavelmente pautado na comercialização da atenção, dados e alteração comportamental dos seus usuários.

No entanto, a complexidade e a dificuldade desse objetivo demanda maiores explanações, de modo que a essa tarefa me lançarei nas futuras colunas.

[1] Na área econômica, esse fenômeno chama-se lock-in-effect.

[2] LANIER, Jaron. Ten Arguments for Deleting Your Social Accounts Right Now. New York: Picador, 2019, p. 137.

DICA DA SEMANA

"A Terra é Plana" (Behind the Curve)

A dica cultural da semana é o documentário “A Terra é Plana” (Behind the Curve), disponível no Netflix. Embora o documentário exija uma certa resiliência indicial [e estômago], para superar os primeiros minutos de apresentação dos movimentos terraplanistas, considero que assisti-lo vale a pena. Afinal de contas, o documentário contém narrativas imprescindíveis a fim de se entender os móveis e consequências de movimentos anti-ciência e anti-intelectuais, tal qual o terraplanismo. 

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