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O que é Literacia Digital e por que ela é indispensável para as democracias

 “Nós somos programados para acreditar em nonsense”.
(Michio Kaku)

“Pizzagate”. “Kit gay”. “Redes de 5G são a causa do coronavírus”. “Vacinas contra o coronavírus contêm microchips 5G voltados a monitorar e controlar a população mundial”. “Hospitais estão inflacionando os números da COVID-19 para enfraquecer a popularidade do Presidente”.

Essas são algumas das notícias falsas/teorias da conspiração que seriam engraçadas, não fossem seus efeitos catastróficos na realidade.

Através da teoria conhecida como “Pizzagate” – cuja circulação iniciou na campanha presidencial dos EUA, em 2016 – Hillary Clinton foi vinculada a uma rede de tráfico de crianças e pedofilia. De acordo com essa teoria, a pizzaria Comet Ping Pong, localizada em Washington, DC, abrigava a sede da organização criminosa, em cujo porão as crianças eram mantidas, mesmo local em que rituais satânicos eram realizados.

Os traços evidentemente delirantes da história e a ausência de qualquer evidência a suportá-la não impediram que Edgar Maddison Welch adentrasse na referida pizzaria na posse de um rifle, disparando-o, no intuito de investigar e enfrentar a tal organização criminosa. Quatro anos após o surgimento dessa teoria conspiratória, rumores a respeito do “Pizzagate” proliferam [sobretudo, agora, às vésperas de novas eleições presidenciais], impulsionados por apoiadores de outra teoria conspiratória de extrema-direita conhecida como QAnon[1].

O “Kit gay” integrou a campanha de desinformação propagada pelo então candidato à Presidente Jair Bolsonaro e seus partidários, nas eleições brasileiras de 2018. Segundo essa teoria, durante o período em que Fernando Haddad exercia o cargo de Ministro da Educação, foram distribuídos “kit gays” nas escolas públicas, com o propósito de incentivar a sexualização das crianças e implantar o que a extrema direita identifica como “ideologia de gênero”. Embora o Tribunal Superior Eleitoral tenha proibido a veiculação de quaisquer links ou propagandas contendo a expressão “kit gay” – por reconhecer que se tratava de disseminação de informação sabidamente inverídica -, pesquisa realizada pelo IDEIA Big Data/Avaaz revelou que 83,7% dos eleitores de Jair Bolsonaro (PSL) acreditavam na existência do “kit gay”, vinculando-o ao candidato Fernando Haddad.

As teorias conspiratórias envolvendo o 5G como causa do coronavírus estão na raiz de uma onda de ataques a torres de redes de transmissão de dados sobretudo no Reino Unido, local em que mais de 70 torres de 5G foram queimadas.

Além disso, o movimento antivacina toma forças através de teorias da conspiração envolvendo a COVID-19, o que coloca em risco a busca pela imunização mundial como uma possibilidade de frear a pandemia. Aliás, o crescimento de resistência à vacinação é considerado, hoje, pela OMS, uma das maiores ameaças à saúde global.

Ainda nessa linha de efeitos catastróficos decorrentes de teorias conspiratórias, é possível recordar os apoiadores do Presidente Jair Bolsonaro irrompendo violentamente em Hospitais, em meio ao sofrimento de vítimas da COVID-19 e da batalha travada por trabalhadores da área da saúde [os quais já enfrentavam a falta de equipamentos de proteção, escassez de remédios e de profissionais], a fim de gravar leitos que, na disparatada versão presidencial, estariam vazios.
Embora seja sedutor pensar que só pessoas “ignorantes” ou “imbecis” acreditariam em teorias semelhantes a essas, a realidade tem apontado em outra direção.

A verdade é que, em alguma medida, nós todos compartilhamos de uma tendência ao pensamento mágico, a estabelecer correlações ilusórias, a enxergar causalidade [mesmo quando ela não existe]. Aliás, um experimento realizado pelo Psicólogo Belga Alberto Michotte, em 1945, revelou que nós tendemos a ver causalidade tão diretamente quanto nós vemos cor. No mesmo sentido, os Psicólogos Fritz Heider e Mary-Ann Simmel revelaram nossa tendência a perceber intenção e emoção mesmo quando elas não existem.

Você quer um exemplo dessa tendência? Experimente olhar para as fotografias a seguir e tente não enxergar rostos ou expressões humanas.




Dificultam essa tarefa os mecanismos cognitivos que estão o tempo todo tentando criar uma narrativa – dotada de sentido e coerência – a partir da realidade.

Claro, talvez nem todos nós estejamos propensos a acreditar em teorias conspiratórias delirantes como a Terra Plana, mas a maioria de nós acredita em signos, bate na madeira depois de falar algo ruim ou acredita na sorte decorrente de um trevo de quatro-folhas.

Essa perspectiva é essencial na Sociedade Digital para que as teorias conspiratórias não sejam vistas apenas como narrativas iniciadas por um pequeno grupo de lunáticos, mas como um problema de informação: a dificuldade em separar e selecionar a informação.

Do oceano de informações obtidas através de ferramentas de busca como o Google pescamos informação ou ruído [versões/opiniões distorcidas e falsas da realidade] com idêntica facilidade.

Daí porque assim como nós aprendemos a ler e a nos comunicar, devemos aprender a navegar através da informação obtida digitalmente. O futuro demanda formação digital (digital literacy) que possui três aspectos cruciais: autenticação, validação e avaliação da informação. É possível pensar algumas perguntas-chaves a guiar tal processo:

(i) Quem está fornecendo a informação [checar as fontes]?
(ii) O conteúdo encontrado é amparado ou sancionado por experts ou estudiosos do tema?
(iii) Eu estou confundindo correlação com causalidade?
(iv) Há evidências factuais que suportem a informação/opinião obtida?
(v) Eu estou em uma bolha de informação?

Esses passos [básicos] são cruciais para guiar testes de verificação e validade da informação obtida, sobretudo antes de repassá-la adiante. E, por óbvio, a habilidade vital para se pensar em literacia digital segue sendo o pensamento crítico.

Em 21 de agosto de 2020, faleceu o Educador Ken Robinson. 

No decorrer da sua trajetória pessoal e acadêmica, Ken Robison sempre lutou por mudanças radicais nos sistemas educacionais ao redor do mundo, denunciando o engessado modelo industrial em que foram pautados. Transformação que passa pelo desenvolvimento de habilidades – usualmente não valorizadas pelo modelo industrial -, tais como criatividade, colaboração e pensamento crítico.

 
DICA DA SEMANA

"O Dilema das Redes" - Documentário Netflix

A dica cultural da semana é o documentário da Netflix, “O Dilema das Redes” (The Social Dilema). O documentário denuncia os mecanismos e técnicas empregados em redes sociais voltados a nos manter permanentemente fisgados e os efeitos deletérios à sociedade daí resultantes. 

 
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