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O paraíso são os outros

“O amor constrói. Gostamos de alguém, mesmo quando estamos
parados durante o tempo de dormir, é como fazer prédios ou
cozinhar para mesas de mil lugares”
.
(Valter Hugo Mãe. O Paraíso são os outros)

O que me faz seguir adiante neste momento são os outros. A ideia de que os outros permanecem lá.

Toda escrita que se movimenta, em mim, neste tempo de pandemia, nasce da percepção de que ainda há outros. E as palavras são a minha via para alcançá-los.

Daqui onde estou – ainda em isolamento – consigo ouvi-los, ruminando a vida, o espanto, o tumulto, cálculos, linguagem, a loucura de lutar, o desassombro de prosseguir, mesmo diante do dantesco inferno que todos os dias parece nos sinalizar: “Deixai toda a esperança… “.

Mas, nos outros, eu encontrei a esperança para firmar os passos em direção ao futuro. Não um novo futuro. Não um novo normal. Enervam-me tais expressões.

Afinal, o que há de novo nas mazelas escancaradas com a pandemia?! Precarização do trabalho, desmonte do Estado, inépcia do Governo, velhas desigualdades! Tudo voltará… colapsado!

Daí a importância do outro. Misture-se aos outros.

Clarissa Pinkola Estés, no livro Mulheres que Correm com os lobos, ensina-nos que delimitar territórios e reconhecer nossa matilha são passos indispensáveis para ocupar nossos corpos com segurança e coragem. Esse alerta serve especialmente às mulheres [cujo corpo ainda é objeto de disputa, conforme já tratei em colunas anteriores].

Se eu pudesse, aliás, dar uma dica às mulheres de todas as idades seria esta: acolham outras mulheres e permitam-se ser acolhidas. Para conseguir contemplar os horrores da atualidade, sem desviar o olhar, e enfrentá-los, tenha uma rede de suporte de mulheres na sua vida.

Foi nos outros que eu encontrei o conforto pela perda do meu avô paterno [falecido em decorrência de Covid-19 logo na primeira semana de quarentena aqui em Curitiba-PR].

Nos outros, a esperança de que, a despeito de aflitivas partidas, muito na vida nos acena boas-vindas.

A chamada de vídeo com o meu pai – feita quando descobrimos que ele também tinha Covid-19. Mesmo com a tão dolorida distância imposta, o olhar clandestino de intenção naqueles olhos dizia: Vai ficar tudo bem, filha!

A chamada de vídeo diária com as minhas grandes amigas Gisella e Emiliana – lembrete constante de que certos elos permanecem intactos.

A chamada de vídeo esporádica com a minha grande amiga Dani Pandini [mãe de 3 – daí a razão de ser esporádica]. O contraste delicioso entre o meu silêncio – espremido em solitude – e as risadas, a folia, o entusiasmo da infância – sempre em expansão – trouxe-me vida! Aliás, fez-me ver que a vida, em algum lugar, ainda saltita! Vida febril, densa, palpitante.

O almoço que, tantos dias, minha mãe veio entregar no portão, por me saber sozinha, sem imaginar que eu me nutria era da companhia dela. O sustento estava no sorriso que toda vez entregava junto e nem a máscara era capaz de esconder.

O destemor, a firmeza, a permanência da minha irmã.

Todos esses instantes compartilhados anunciam que – a despeito do distanciamento/isolamento social – há tanto encontro latente.

Também na tessitura das redes virtuais, por vezes, conseguimos construir laços [que nos ajudam a desatar os nós da vida]. E nesses laços há substância, afeto, troca e encontro. Pessoas que eu “acompanho” em distanciamento, mas que de tão concretas no meu dia a dia, tenho a impressão de que se esticasse bem os braços eu poderia alcançá-las.

Pessoas que me fazem sempre entoar o poema de Charles Lamb: “A Terra parecia um deserto que eu estava destinado a atravessar, buscando encontrar velhos rostos familiares” . Esses rostos familiares fazem-me viver a vida desde a medula.

E, assim, de um filete de vida, faz-se rio. Das margens que represam, faz-se caminho para o mar [que desconhece finitude]. Espalham-se anseios pelo horizonte.
Lá, onde – promete-nos Galeano – está a utopia.

DICA DA SEMANA

O texto dessa semana acabou saindo um agradecimento. Então, como forma de complementar a expressão do meu afeto, eu quero indicar esse vídeo do Galeano, tão vigoroso quanto terno.

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