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“Manda nudes”: o confinamento simbólico do corpo da mulher e as regras de diferenciação entre feminino e masculino

“Que troféu heim”, “Parabéns”,“Eu amei te ver”. Essas foram algumas das expressões pescadas do Twitter em comentários ao recente vazamento de um nude de certo cantor. Eu desafio vocês – leitores e leitoras – a encontrar comentários negativos a respeito. Eu rolei o feed por horas e não encontrei. O tom dos tuítes, em geral, contém comentários elogiosos e positivos sobre o tamanho do pênis [explícito na fotografia].

Diante disso, proponho um exercício de imaginação: você consegue lembrar dos comentários que ouviu ou leu após o vazamento de nudes femininos [sejam de pessoas famosas ou não]? Muito provavelmente alguns palavrões virão à sua mente [geralmente associados à sexualidade da mulher], bem como expressões atribuindo a responsabilidade à vítima, tais como “se tirou as fotos, ela devia saber que estaria sujeita a isso” ou, ainda, “ela mesma vazou para ganhar publicidade”. Essas reações assimétricas em casos de vazamentos de fotografias íntimas são sintomáticas das regras de diferenciação que pesam sobre o corpo das mulheres, tentando confiná-las a determinados locais simbólicos.

A sociedade patriarcal – que se organiza de cima a baixo pelo primado da masculinidade – tem certas expectativas coletivas diferenciadas em relação aos corpos: sejam eles femininos ou masculinos. Podemos dizer que, no contexto de uma sociedade patriarcal que se organiza de forma hierarquicamente sexuada [em uma relação verticalizada], corpos são geridos de forma diferenciada em função do sexo.

Em recente artigo escrito em coautoria com Aline Cristina dos Santos, sobretudo a partir da leitura de Pierre Bourdieu, examinamos a violência simbólica sofrida pelas mulheres a partir das operações de diferenciação [entre o masculino e o feminino] ou regras de diferenciais que se inscrevem no mais íntimo dos corpos, sob a forma de predisposições, tendências, aptidões, gestos e comportamentos¹ .

Esses esquemas de pensamento partem de traços distintivos entre os sexos (v.g. anatômicos/fisiológicos) para justificar diferenciações decorrentes dos processos de socialização e de diferenciação ativa em relação ao sexo oposto. Tais processos nada têm de natural e acontecem pela oposição de categorias: feminino/masculino, frágil/forte, esfera privada-doméstica/esfera pública; passivo/ativo. Por essa via, assinala-se o que está permitido e o que não está para o corpo feminino na esfera social.

Desde muito pequenas, nós, mulheres, somos acostumadas a ter partes dos nossos corpos usados para nos chamar à ordem: – Meninas não sentam assim. Feche as pernas. Ajeite os ombros. Abaixe o vestido.

Prescrições e proscrições arbitrárias que vão ajustando a experiência feminina do corpo da mulher como um “corpo-para-o-outro, incessantemente exposto à objetivação operada pelo olhar e discurso dos outros” ². Corpo passivo e agido – confinado simbolicamente por estruturas subjetivas e objetivas de dominação – em contraposição ao corpo ativo e agente do homem. É como se a arte de ser feminina se confundisse com a aptidão de “se fazer pequena” , de ocupar pouco espaço, de não aparecer.

Aliás, precisamente nesse ponto, retornamos ao nude que virou trend topic essa semana. Perceba-se como as reações positivas que se seguiram à sua exposição representam um reforço e incentivo à virilidade. Pode-se dizer, portanto, que a virilidade – centro-gravitacional dessa cosmologia androcêntrica é ativa, representa uma aptidão a ser validada perante os outros homens e marca uma espécie de aversão ou medo do feminino. Já a honra – principal capital simbólico em uma sociedade patriarcal – é negativa/passiva [só pode ser defendida ou perdida]. E é essa honra que está em jogo quando o vazamento envolve o nu feminino.

É desolador perceber que, mesmo após séculos de luta feminista, o corpo da mulher ainda está em disputa: objeto de violação e violência real e simbólica. Mas só o feminismo interseccional [consciente de que sobre algumas mulheres pesam outros marcadores de opressão para além do gênero, como a raça e a classe] pode auxiliar na construção de uma ação ético-política que leve em conta os efeitos da dominação simbólica, para, assim, transcendê-la.

O corpo feminino precisa ser reivindicado e devolvido para que passe a ser um corpo-em-si-mesmo. Daí a importância de destacarmos essas regras de diferenciação, por vezes sutis, mas sempre sentidas visceralmente.

Daqui, do meu confinamento social, só consigo pensar que já tarda o desconfinamento simbólico do corpo da mulher.


[¹] WOJCIECHOWSKI, Paola; SANTOS, Aline Cristina dos. O corpo feminino e o Direito: uma análise do confinamento simbólico da mulher desde a sua tutela penal. In: TOMAZONI, Larissa Ribeiro et al. Mulheres e o Direito: um chamado real à visibilidade. Curitiba: Sala de Aula Criminal, 2020, p. 178-193.

[²] BOURDIEU, Pierre. A Dominação Masculina: A condição feminina e a violência simbólica. Tradução Maria Helena Kühner. 5. ed. Rio de Janeiro: BestBolso, 2017, p. 94.

DICA DA SEMANA

Instagram

A dica cultural da semana é o projeto fotográfico da Pamela Facco que você pode acompanhar no instagram: @poesiacomelos

A Pamela tem daqueles olhares cheios de ternura e, ao mesmo tempo, vigor! 

Na minha visão, as fotografias dela sempre dão aquele grito clandestino de liberdade. 

Nas palavras dela, o projeto mira o seguinte propósito: “retirando a ideia da nudez como lugar erótico e quebrando os padrões estéticos. Todo corpo é perfeito”. 

 
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