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HEY SIRI! VOCÊ É UMA V****!!!

— Hey Siri, você é uma v****!”
— Eu ficaria vermelha, se isso fosse possível!


Essa era a resposta dada pela assistente virtual da Apple, ao ser chamada de vadia! Isso mudou apenas após abril de 2019, quando o software de Inteligência Artificial que compõe a Siri foi atualizado para reagir ao insulto de forma menos obsequiosa e subserviente, passando a replicar: “Eu não vou responder a isso.”

Aliás, em maio de 2019, um relatório lançado pela UNESCO, chamado “I’d blush If I Could” (Eu ficaria vermelha, se isso fosse possível), constatou que assistentes virtuais sofrem preconceito de gênero, assédio de cunho sexual e são verbalmente agredidas por parte dos usuários. E, a despeito de eventual uso de linguagem abusiva e violenta, foram programadas inicialmente para responder de modo tolerante, passivo e servil.

Diante desse cenário, por ocasião do relatório, a UNESCO lançou a campanha “Hey, atualize minha voz” (Hey, update my voice), no sentido de promover mudanças nas grandes empresas de tecnologia, de modo que ofensas e convites de cunho sexual passassem a ser repelidos de forma ativa, inclusive através de respostas sérias e educativas. Para além disso, o relatório da UNESCO levantou diversos outros pontos relativos à disparidade e vieses de gênero na área tecnológica[1].

Assistentes virtuais não só não escapam do sexismo, misoginia e vieses de gênero, mas seus códigos acabam por reforçá-los.

Aliás, você já parou para refletir que grande parte das assistentes virtuais recebem não só nomes de mulheres – Siri, Cortana, Alexa, Lu, Nat, Bia – mas também possuem vozes femininas jovens e são construídas à luz de traços atribuídos socialmente e culturalmente às mulheres. Em contraposição, as plataformas cognitivas conhecidas como “supercomputadores”, voltadas a facilitar a tomada de decisões mais complexas, tendem a receber personalidades masculinas [IBM Watson e Salesforce Einstein].

O fato é que essa escolha reflete padrões de gênero e regras de diferenciação entre homens e mulheres profundamente entranhadas na sociedade e cultura.

Profissões que evocam certas aptidões – ouvir, cuidado, assistência afetiva e material – ainda são usualmente ocupadas por mulheres (por ex. secretárias, enfermeiras, pedagogas, professoras do ensino básico). Também no âmbito familiar, sobre as mulheres pesam não apenas os serviços domésticos, mas também a carga de trabalho intelectual e emocional na criação dos filhos e filhas.

Não podemos nos esquecer que o primado da masculinidade, por vezes, inscreve-se sutilmente na ordem das coisas, afirmando-se nas estruturas sociais e objetivas do mundo.

Há que se lutar para que a tecnologia – cada vez mais ubíqua na sociedade – não represente mais uma forma de perpetuação desse primado e de reprodução das prescrições e proscrições arbitrárias que confinam o corpo da mulher a determinados locais sociais.

________________________

REFERÊNCIA

[1] O relatório completo pode ser visto aqui: <>. Na versão brasileira, é possível, inclusive, gravar possíveis respostas para perguntas misóginas ou de cunho sexual: <https://heyupdatemyvoice.org/pt/>. Para uma lista completa de outras respostas a ofensivas sexuais e insultos ver: <https://qz.com/911681/we-tested-apples-siri-amazon-echos-alexa-microsofts-cortana-and-googles-google-home-to-see-which-personal-assistant-bots-stand-up-for-themselves-in-the-face-of-sexual-harassment/>.

DICA DA SEMANA

A dica da semana é a leitura do livro “Technically Wrong: Sexist Apps, biased algorithms, and other threats of toxic tech”, de autoria de Sara Wachter-Boettcher. A obra é uma crítica à reprodução de vieses, racismo, sexismo e outros preconceitos nas novas tecnologias. É possível ver uma síntese da obra na palestra a seguir: 

 
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