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Aspectos situacionais vs. Disposicionais na explicação do comportamento humano: erro fundamental de atribuição e o viés do ator-observador

“Todos temos por onde sermos desprezíveis. Cada um de nós
traz consigo um crime feito ou o crime que a alma lhe não
deixa fazer” (Fernando Pessoa, Livro do Desassossego).

Por que as pessoas agem da forma como agem? O que está na raiz dos comportamentos humanos – inclusive aqueles criminosos? De um lado, a fim de responder tais questões, a Psicologia Clínica e a Psiquiatria olham para dentro do ator: buscando no indivíduo e em suas disposições individuais/internas a explicação para comportamentos e ações. Por outro lado, a Psicologia Social, antes de examinar os fatores internos (disposicionais), olha para fora: rastreando fatores externos ao ator (situacionais) que possam contribuir para seus comportamentos e ações.

O Psicólogo Social Philip Zimbardo, através do Experimento de Aprisionamento de Stanford, buscou enfrentar a concepção cultural [individualista] que rejeita a influência de variáveis situacionais e do entorno na prática de condutas ruins – vistas sempre como um produto de disposições internas voltadas para o cometimento do mal.

No controverso experimento realizado pelo Departamento de Psicologia da Universidade de Stanford, em 1971, 24 homens foram selecionados a fim de vivenciar a experiência do sistema prisional, sendo direcionados randomicamente para os papéis de prisioneiros ou de guardas [testes foram realizados de modo a atestar que todos os participantes fossem igualmente saudáveis e estáveis sob o ponto de vista psicológico]. Para tanto, no porão do prédio do
Departamento de Psicologia construíram-se celas a fim de se mimetizar um estabelecimento prisional.

Após apenas 6 dias, o experimento teve que ser interrompido, uma vez que os guardas passaram a praticar tortura, abusos verbais e físicos contra os prisioneiros. Ao fim da experiência, Zimbardo concluiu que um terço dos guardas apresentou genuínas tendências sadísticas. Já os prisioneiros submeteram-se à autoridade e ao processo desumanizante, com pouca ou nenhuma resistência, experimentando intensa desindividuação, despersonalização, desorientação, sofrimento psíquico e colapsos nervosos.

Para Zimbardo, foi espantoso constatar a forma através da qual os prisioneiros agiam com absoluta docilidade, obediência e submissão à autoridade, mantendo-se no papel assinalado mesmo quando estavam longe do local de contagem e da supervisão dos guardas. Assim, mesmo nos momentos em que poderiam – através da socialização entre si – escapar do papel de opressão a que foram violentamente lançados [em uma tentativa de recuperar a identidade perdida], os prisioneiros, em regra, agiam de forma submissa.

Além disso, os questionários e entrevistas que se seguiram ao experimento evidenciaram a existência de uma importante falha cognitiva: nossa tendência a acreditar que agiríamos diferente ao sermos expostos a determinadas situações adversas. No contexto da prisão de Stanford, por exemplo, nós tendemos a acreditar que não seríamos guardas violentos ou desumanos, que não praticaríamos tortura e trataríamos os prisioneiros com dignidade – independentemente do contexto e do sistema em que fôssemos inseridos.

No geral, portanto, acreditamos estar menos sujeitos às forças situacionais – se comparados aos outros. Ao mesmo tempo, confiamos na existência de forças internas [traços de personalidade] que nos fazem resistir às pressões sistêmicas e situacionais.
A fim de exemplificar a forma através da qual a nossa percepção a respeito dos comportamentos alheios é diferente da percepção relativamente aos nossos próprios comportamentos, peço ao leitor ou à leitora que pense na seguinte situação: digamos que você seja mal atendido em um estabelecimento comercial.

Muito rapidamente, tendemos a enxergar o/a atendente como uma pessoa “rude” ou “mal-humorado/a! Essa é a nossa primeira reação mesmo em face de uma pequena – mas áspera – interação experienciada: atribuir determinados traços de personalidade [rótulos] às pessoas! Nossa primeira reação não é pensar: “Quem sabe esse atendente esteja enfrentando dificuldades ou tendo um péssimo dia”!

Somos rápidos, portanto, em examinar o comportamento dos outros a partir de aspectos internos (disposicionais). Por outro lado, quando pensamos em nossos próprios comportamentos, nós tendemos a levar em conta os aspectos externos (situacionais) que podem influenciar nossas ações.
Outra forma bastante interessante de perceber como essas mudanças de perspectiva operam na forma através da qual nós enxergamos os outros, a realidade e nós mesmos é o seguinte teste:

Pense em uma pessoa que você conhece bem – pode ser um amigo, um familiar, namorado/a ou esposo/a. Agora, de acordo com as três opções abaixo, responda a seguinte questão: a pessoa em que eu estou pensando tende a ser[1] :

a. facilmente influenciável por crenças ou -> analítico/racional -> depende da situação
sentimentos pessoais, em vez de  
examinar os fatos

b
. energético -> relaxado -> depende da situação

c
. solene -> casual -> depende da situação

d
. quieto -> tagarela -> depende da situação

e
. prudente -> corajoso -> depende da situação

f
. flexível -> inflexível -> depende da situação

g
. intenso -> calmo -> depende da situação

h
. prático -> idealista -> depende da situação

Agora retorne ao teste e responda novamente, dessa vez, pensando em si próprio.

Se você for semelhante à maioria das pessoas tenderá a responder “depende da situação” quando pensar em si mesmo, ao passo que, ao pensar nos outros, muito provavelmente tenderá a reduzi-los a rótulos ou enxergar neles traços de personalidade permanentes [conforme as duas primeiras colunas acima].


Isso se deve, em partes, ao fato de que acessamos apenas as ações exteriorizadas pelos outros. Por outro lado, quando examinamos nossos próprios comportamentos, acessamos também os sentimentos, pensamentos e motivações internas subjacentes aos comportamentos/ações exteriorizadas, de modo a perceber, mais facilmente, que nossos comportamentos variam a depender da situação, do contexto ou entorno.

Aqui, estão em atuação duas ilusões cognitivas: o erro fundamental de atribuição ou viés de correspondência (fundamental attribution error) e o viés do ator-observador.

O erro fundamental de atribuição é justamente essa poderosa ilusão cognitiva que turva a nossa percepção relativamente à importância das variáveis externas (situacionais) e do entorno no comportamento dos outros. Daí porque, quando avaliamos os comportamentos dos outros [de fora], há uma tendência compartilhada no sentido de considerar que tais comportamentos decorrem exclusivamente de disposições internas, atributos pessoais (aspectos disposicionais). Esse viés restringe-se à percepção que temos dos outros[2] .

De forma complementar, o viés do ator-observador leva ambas as perspectivas em conta – a minha e a do outro –, de modo a exercer influência sobre como nós percebemos os outros e interagimos em sociedade. Trata-se da nossa tendência a atribuir o comportamento dos outros a fatores disposicionais (traços de personalidade), na mesma medida em que, quando avaliamos os nossos comportamentos [a partir de dentro], há uma tendência a ponderar a relevância de fatores externos/ambientais (aspecto situacional)[3]. Isso se reflete na rapidez com que atribuímos rótulos aos outros em decorrência de suas ações [já que tendemos a enxergá-los em termos de características inatas e traços de personalidade permanentes].

Os pontos-cego cognitivos aqui tratados devem ser ponderados quando avaliamos ou examinamos as ações alheias. Sobretudo porque não temos acesso às motivações, pensamentos, sentimentos, sensações e percepções dos outros, devemos levar em consideração a multiplicidade de variáveis – sobretudo aquelas situacionais – que podem estar na raiz de um dado comportamento.
________________________________________
[1] O teste original foi extraído de: LEVITIN, Daniel. The Organized Mind: Thinking Straight in the Age of Information Overload. UK: Penguin Books, 2015.

[2] GAWRONSKI, B. (2007). Fundamental attribution error. In R. F. Baumeister & K. D. Vohs (Eds.), Encyclopedia of social psychology, Vol. 1, pp. 368-369.

[3] PRIEST, Henry. Biases & Heuristics: the complete collection of cognitive biases and heuristics that impair decisions in baking, finance and everything else. Columbia, 2019. p. 11.

DICA DA SEMANA

Quiet Rage

Documentário

O documentário “Quiet Rage” (1984) retrata o Experimento de Aprisionamento de Stanford, contendo filmagens realizadas no curso do experimento, entrevistas, conclusões e aspectos da metodologia empregada. Indica-se, também, o filme “O Experimento de Aprisionamento de Stanford” (2015) do diretor Kyle Patrick Alvarez.

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