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Aplicativos de namoro podem sabotar suas chances de ser feliz nos relacionamentos amorosos

Sites de relacionamento e agências voltadas à facilitação da procura por um(a) parceiro(a) romântico(a) não são novidade. No entanto, o formato oferecido pelos aplicativos de relacionamento (dating-apps) – no estilo Tinder – pode estar provocando profundas alterações na forma através da qual nós experienciamos o romance e, por consequência, reduzindo as chances de sermos felizes em relacionamentos amorosos.

Antes de iniciar o assunto, gostaria de ressaltar que o presente texto é especialmente indicado para todos os leitores e leitoras que: a) no geral, tem interesse nos profundos impactos que algoritmos exercem nas nossas tomadas de decisão cotidianas; b) mais especificamente, naqueles que fazem uso do Tinder e aplicativos congêneres com a finalidade de procurar um parceiro ou uma parceira romântico(a).

É bom, desde já, esclarecer que o texto não pretende levantar a hipótese de que tais aplicativos invariavelmente falham no propósito de buscar o “grande amor da sua vida”, tampouco de que não possam ser bastante proveitosos se tivermos em mente outros objetivos, tais como: fazer amizades, expandir nossas visões de mundo – ao manter contato com pessoas estranhas aos círculos que usualmente frequentamos –, ou mesmo encontrar uma boa companhia para fazer turismo em uma cidade desconhecida. Eu mesma já tive experiências bastante positivas no Tinder: a construção de laços duradouros de amizade; a troca de valiosas informações acadêmicas; o compartilhamento de músicas, filmes e livros; o diálogo; o afeto.

No entanto, se estreitarmos um pouco o propósito do aplicativo – restringindo-o à finalidade de encontrar um relacionamento romântico – talvez o seu uso seja contraproducente. Ao menos isso é o que nos apontam crescentes experimentos e pesquisas realizados sobretudo nas áreas da Psicologia Experimental e Psicologia Social.

Aplicativos de relacionamento – como o Tinder – tendem a subverter a lógica que deve reger os relacionamentos humanos [sobretudo os amorosos]. Quando nós conhecemos alguém, somos idealmente guiados pela lógica do envolvimento, do empenho, da busca pela afinidade e pela conexão. Interagir com alguém é despovoar-se por alguns instantes e ir passear no outro, é estabelecer laços, estar destacado de si e presente na inauguração do outro. As interações humanas apresentam nuances difíceis de ser capturadas – gestos, cheiros, movimentos, expressões.

Por outro lado, em aplicativos como o Tinder nós estamos “em exibição” (on display): somos escolhidos por um algoritmo – a partir de critérios opacos – e apresentados para os outros em um menu de incontáveis opções. Essa interface tende a alterar a lógica dos relacionamentos: da lógica do envolvimento à lógica da avaliação. Passamos a ser abordados como commodities: avaliados e [sempre] comparados com as demais opções expostas. E o pior, nossas decisões passam a ser predominantemente orientadas e mediadas por um aspecto muito superficial: a aparência.

Aliás, a aparência acaba ofuscando outras variáveis tantas vezes mais importantes para definir o sucesso em um relacionamento: a inteligência, o bom humor, a empatia, a afinidade de visões de mundo e de anseios, o companheirismo, o entusiasmo pela vida, e, sobretudo, aquela qualidade intangível que identificamos com “a química”.

Nesse contexto – de primazia da aparência física – que estimula a frivolidade, as chances de que alguém se comprometa ou se esforce para conhecer efetivamente o outro [para além do aspecto bidimensional] parecem ser reduzidas, já que sempre haverá um rol inacabável de outras pessoas. Assim, a menos que um(a) pretendente cause um impacto positivo logo nas primeiras conversas, a tendência é que a maioria dos “matches” resultem em desconexões quase imediatas. Essas características levaram os pesquisadores e Psicólogos Sociais Eli J. Finkel, Paul W. Eastwick, Benjamin R. Karney, Harry T. Reis e Susan Sprecher  a nomearem essa nova forma de se relacionar, chamando-a “relationshopping”
[1] (shopping de relacionamentos).

Potencial para o vício. De modo similar às redes sociais tratadas nas colunas anteriores, aplicativos de relacionamento são projetados para nos manter fisgados, portanto, são assim desde a concepção (by design). Antigamente, websites voltados à procura de um(a) parceiro(a) romântico(a) eram separados das demais atividades diárias, via de regra, era necessário um momento no dia para dedicar-se exclusivamente a isso. Hoje, tais aplicativos competem pela nossa atenção [na chamada economia da atenção], de modo que, com a finalidade de gerar adicção, são empregados truques usuais: notificações, alertas por e-mail e interfaces que lhes confere um aspecto de entretenimento.

No Tinder, por exemplo, cada novo “match” estimula a produção no cérebro de uma substância chamada dopamina. A dopamina é um neurotransmissor ativado quando experienciamos novidades e, ao agir no sistema límbico, proporciona sensação de prazer. Por essa razão, mecanicamente, tendemos a ser guiados pela busca incessante de novidade. O grande trunfo, portanto, da interface de aplicativos como o Tinder foi transformar o “namoro” em um esporte/um jogo, que pode permear diversas atividades do nosso dia. Quem nunca parou para dar “matches” na hora do almoço ou na fila do banco?

O paradoxo da escolha. Essa comoditização das pessoas e a enorme quantidade de opções pode tornar mais difícil a realização de escolhas e, uma vez feitas, aumentar as chances de insatisfação com a decisão tomada, pois tendemos a ser assombrados pela comparação com potenciais melhores escolhas.

Nós somos muito ruins em narrar o que queremos e somos ruins em predizer o que realmente acharemos interessante em alguém quando em uma interação pessoal. Um experimento realizado pelos Professores da Universidade de Columbia, Sheena Iyengar e Raymond Fisman, capturou perfeitamente esse descompasso entre o discurso acerca do que esperamos de um par ideal, e aquilo que nos atrai na realidade, ao realizarem sessões controladas de speed-dating.

Participantes do experimento foram instigados, primeiramente, a preencher um questionário no qual constavam seis principais características (atratividade, interesses compartilhados, o fato de ser engraçado/ter senso de humor, sinceridade, inteligência e ambição), cada uma dessas características deveria ser avaliada em uma escala de zero a dez, a partir daquilo que a pessoa estivesse procurando em um(a) potencial parceiro(a) romântico(a). Na sequência, ao final dos “encontros” [após a breve interação com cada um(a) dos(as) pretendentes], os participantes eram instigados a avaliá-los com base nas mesmas principais características.

Os pesquisadores descobriram que, muitas vezes, as características apontadas como as mais atraentes por um dado participante destoava das características que efetivamente o atraíram durante o encontro[2].

Aliás, quem nunca sentiu a atração por uma pessoa aumentar à medida que a conhecemos e, repentinamente, alguém que não se encaixa na sua lista de preferências torna-se irrevogavelmente irresistível? No amor, as nossas ações são mais reveladoras – daquilo que nos atrai – do que nosso discurso.

Fadiga de relacionamentos. Essa busca incessante por parceiros/parceiras [imagine conhecer 90 pessoas em um bar, mas só trocar telefone com uma] gera o que estudiosos da área de tecnologia cunharam de fadiga de relacionamentos online (dating-app fatigue). A fadiga aponta para uma possível tendência de priorização de quantidade em detrimento da qualidade e profundidade dos relacionamentos. Em outras palavras, a noção de eficiência passa a guiar decisões na vida amorosa.

Algoritmos decidindo quem vamos amar.Em aplicativos de relacionamento, você compõe uma lista organizada por um algoritmo invisível, opaco, que, a partir dos seus históricos passados, aponta possibilidades futuras. Mas os algoritmos não abrem espaço para a serendipidade.

Quanto à minha experiência pessoal no Tinder, posso dizer que foi permeada por um crescente incômodo. Depois de um tempo ruminando as possíveis origens desse desconforto, encontrei na metáfora do speed-dating uma ótima forma de explicá-lo. Você dá um “match” a pessoa vem e se senta na sua frente, vocês trocam algumas palavras, mas a rapidez e o formato do “encontro” fazem com que o relacionamento sequer arranhe a superfície de ambos. Logo um sininho toca e outra pessoa senta-se em sua frente. Ao final da sessão de speed-dating você até pode passar seu telefone ou sair com aquela pessoa por quem se sentiu atraído ou com quem parece ter estabelecido uma conexão, mas, ainda assim, existe uma grande chance de que vocês simplesmente se percam em meio à ausência de foco na comunicação e em meio à ilusão de incontáveis opções.

Após enveredar para o estudo de decisões amparadas em algoritmos (algorithmic decision-making), pude constatar que minha percepção pessoal encontra amparo em robusta pesquisa acadêmica. Em uma análise de metadados, por exemplo, os pesquisadores Jennie Zhang e Taha Yasseri, da Universidade de Oxford, identificaram que de 400.000 interações mantidas em “namoros online”, a maior parte das conversas é curta – menores do que vinte mensagens – e duram aproximadamente 15 dias no máximo, e uma pequena parcela resulta em trocas de telefones[3].

É comum nesses aplicativos deparar-se com pessoas buscando pelo extraordinário desde o início, nas primeiras frases, na primeira interação, caso contrário, descartando seus pretendentes. E, assim,  esquecem-se de que, tantas vezes, o amor acontece em singelos momentos de descuido, constrói-se de delicadezas – um pedacinho de rotina, um algo que vibra. Ao menos para mim, o romance se constrói de miudezas, de olhares suplicantes e de palpitares contínuos.

Mas é difícil ouvir um coração bater em meio aos ruídos das interações digitais.

[1]     FINKEL, Eli J, et al. Dating in a Digital World: Understanding the psychology of online dating can turn a frustrating experience intro a fruitful mission. Scientific American Mind, September/October, 2012, p. 26-33

[2]     Uma análise do estudo está disponível no livro Blink, de Malcom Gladwell

[3] Estudo completo dispoível em: <<https://arxiv.org/abs/1607.03320>>.

Sobre tinder e turistas

Pensar sobre aplicativos de relacionamento e sobre a busca pelo contato no vazio, fez-me lembrar de uma poesia que escrevi há pouco tempo, pedindo licença para transcrevê-la [devido à pertinência com o tema]:

 

Eu nunca quis turista algum em minha vida
Gente que nunca descansa, me pega sempre de partida
Fruto pela metade, em uma constante despedida
Espalhando só ausência, silêncio e indeterminação.
Eu sempre quis entregar de bandeja meu coração.

 

E eu nunca fui só uma turista,
Nesse mundo de imagens distantes
Passando sem tatear, pessoas, paisagens, instantes
Eu quero demorar o bastante,
Talvez não para erguer residência
Mas o suficiente para pedir colo, asilo, proteção 
consistência

Mas eu olho pro lado e o que vejo
São turistas: Gente oca de presença, 
passeando pela vida alheia.
Deixando só rastro – raspas – grãos de areia
Andando em seus ônibus lotados,
Roteiros demarcados,
Avançando predatoriamente em direção
aos aspectos mais rasos do que a gente nem quer mais
Em meio à tecitura espessa, grossa, movediça,
dessas irrealidades virtuais.

 
DICA DA SEMANA

Timer

Filme

A dica da semana é o filme Timer. O filme se passa em um futuro no qual dispositivos eletrônicos (os Timers) prometem predizer – com altíssimo nível de acurácia – os relacionamentos que serão bem-sucedidos. Assim, iniciam uma contagem regressiva a partir do momento em que são implantados no pulso das pessoas até o encontro entre as “almas gêmeas”. Apesar de o filme ser de 2009, ele levanta discussões bastante atuais em torno de análises preditivas e suas limitações. 

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