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Reprodução. Refúgio 343.

Um refúgio nunca foi tão importante

Com a crise socioeconômica e política enfrentada pela Venezuela principalmente desde 2016, despontam no cenário geopolítico diversos e severos efeitos. Sentidos desde a emergência dessa conjuntura de tensão e aprofundados até os dias atuais. Longe de simplificar esse complexo conflito, com diversas frentes mesmo que preponderante a sua face eminentemente política, é preciso encarar de forma honesta, racional e sensível a seguinte realidade: a vivência das milhões de pessoas que resolveram deixar o país nesse contexto.

Segundo o ACNUR, mais de 5 milhões de pessoas já abandonaram a Venezuela em busca de novos rumos e diferentes localidades para escreverem suas biografias, sendo o maior êxodo na história recente da região. O Brasil é a 5ª nação mais procurada por essas pessoas, antecedida apenas pela Colômbia, Peru, Chile e Equador (Agência Brasil). Ao todo, mais de 264 mil refugiados venezuelanos já entraram no Brasil. Diante disso, para se materializar o compromisso formal do país com a fraternidade e a inclusão, é preciso que se busque garantir a essas pessoas uma vida digna em terras brasileiras.

Esse é exatamente o propósito da organização humanitária Refúgio 343, que mantém operação em Roraima, no norte do país. A entidade desenvolveu um modelo de reinserção socioeconômica emergencial, baseada no tripé Emprego, Educação e Saúde. Buscam garantir, assim, aos refugiados venezuelanos que chegam em RR a oportunidade de recomeçarem suas vidas com reintegração em alguma cidade brasileira em, no máximo, seis meses. A atuação do grupo é alicerçada no conceito de interiorização, como sendo uma estratégia de deslocamento planejado e fiscalizado, movendo-se de Roraima para outras localidades brasileiras onde serão garantidas efetivamente a estas famílias uma oportunidade de emprego lícito e regular, um lar, escolarização para as crianças, entre outros direitos.

De acordo com a organização, o seu trabalho já resultou na interiorização de 174 famílias (528 refugiados venezuelanos) para 71 cidades de 13 estados brasileiros. Nos meses de abril e maio, portanto, durante a pandemia, 55 famílias (209 refugiados venezuelanos) foram igualmente interiorizadas.

Esta coluna tem o escopo de incluir e inaugurar essa relevante questão para se pensar o Estado brasileiro, assim como introduzir aos leitores esta que será uma parceira regular deste espaço. A parceria da minha coluna com a organização Refúgio 343.

Num primeiro momento, quinzenalmente serão compartilhadas aqui histórias e narrativas destes que buscam um recomeço no Brasil, que não tiveram o direito de serem vistos como mero migrantes e que muitas vezes são lamentavelmente reduzidos a números. Não só suas particulares histórias, como também, por consequência, abordar as idiossincrasias da situação de refúgio, que merecem ser democratizadas, principalmente aqui no Sul do Brasil onde muitas vezes seus residentes parecem estar absortos a isso.

Advirto que não se trata de romantizar o fenômeno e nem de se esquecer que todas essas feridas são produções diretas do sistema socioeconômico em vigência. O que não se pode obliterar é o direito dessas pessoas em serem ouvidas e de enxergarem como importantes suas trajetórias. A memória e a narração são armas poderosas contra a apatia.

Sem mais delongas, conheçam a história de José:

José, 31 anos, pai, do estado de Zulia. Como muitos neste ofício trabalham na América Latina, José era um típico garimpeiro venezuelano. Em sua trajetória, um evento em particular deu conta de mudar drasticamente os rumos de sua vida. Eis que sofreu um acidente enquanto garimpava. Desde então, nunca mais pôde voltar a caminhar. José caiu em um buraco de garimpo, estrutura comumente construída para extração de minerais na profundeza terrestre. Fraturou severamente uma vértebra torácica. Por conta de um sistema de saúde em muito comprometido em seu país de origem, José veio para o Brasil já dentro de uma ambulância e acompanhado de sua esposa grávida. No veículo, era transportada não apenas a busca por um tratamento de saúde, como por ambições e oportunidades nesse novo território que se aconchegava. Pelo sucateamento do sistema de saúde também ser uma realidade brasileira, já em Roraima, José permaneceu meses à espera do atendimento necessário. Além de frustrações, o venezuelano sentia na pele os pesares dessa demora. Carregou com si escaras e feridas. A partir disso, nas ruas acabou parando. Seu filho, nesse contexto, nasceu. Mais uma família venezuela em solo brasileiro.
Sua história chegando ao Refúgio 343 de pronto foi acolhida. O esforço pela sua interiorização deveria, portanto, respeitar suas particularidades. E assim foi. No começo do mês, José e sua família foram recebidos em Jundiaí-SP por um sólido núcleo de acolhedores. A esposa já está encaminhada na procura por uma vaga de emprego e Jose dará início à fisioterapia (a principal acolhedora é fisioterapeuta) e ao tratamento neurológico. Além de estabilidade, José foi deparado com mais uma notícia otimista: a de que poderá voltar a caminhar, por suas próprias pernas e para onde quiser.

DICA DA SEMANA

Feel Good

Série

Uma das melhores séries que você verá se busca no mesmo pacote romance, comédia e drama. Com roteiro e atuações muito verdadeiros, a série acompanha um pouco da vida de Mae Martin, uma comediante australiana vivendo em Londres. Consegue balancear muito bem leveza e profundidade. Daquelas que se devora em uma tacada só. E se vem buscando consumir histórias menos heteronormativas essa continua sendo uma ótima dica, já que narra também as idas e vindas de um casal lésbico, com as particularidades que possui.

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