fbpx

Conteúdo jurídico semanal
para você se manter informado!

EMais

colunistas

Imagem de Fifaliana Joy por Pixabay

Os efeitos da pandemia na saúde mental de presos(as)

Um recente artigo lançado na seção de Psiquiatria da revista The Lancet de imediato me chamou a atenção. Pra quem não a conhece, a The Lancet é uma das revistas científicas da área médica mais prestigiadas no mundo.

Assinado por Jennifer Shaw, Thomas Hewson, Andrew Shepherd e Jake Hard, o artigo em questão propõe alavancar uma importante problemática: os efeitos da pandemia para a saúde mental de presos(as). O texto, que tem tamanho modesto, não chega a aprofundar estudos de casos, mas tem o mérito de levantar alguns possíveis gatilhos e de nos rememorar o conhecido diagnóstico de que se está custoso para nós libertos, seguramente está pior para aqueles aprisionados.

Segundo o artigo, de início, é preciso saber que a população prisional, sujeita a tantas adversidades, já é grupo de grande preocupação devido às altas taxas de transtornos mentais pré-existentes, como também de suicídio e automutilação. Para que se tenha ideia, um estudo da USP de 2006 evidenciou que no estado de SP 61,7% dos presos tiveram ao menos um transtorno mental ao longo da vida e cerca de 25% dos em regime fechado pelo menos um transtorno mental em 2005¹ . De acordo com Maíra Marques, em 2007 no estado, cerca de 12,3% dos detentos e 25,8% das detentas apresentaram transtornos mentais graves² . Nos Estados Unidos, em estudo de 2006, mais da metade da população prisional teve problemas de saúde mental³ .

Outra questão fundamental que o estudo aponta são as suspensões das visitas por conta das políticas de isolamento. Quem observa o fenômeno criminal sabe a relevância das visitações para quem está aprisionado. Cadeias inteiras se mobilizam para isso, criando regras formais e informais para que esse espaço seja garantido semana após semana. São conexões essenciais com o mundo de fora das celas e oportunidades para estreitar relações de afeto.

Relatam os autores também que a suspensão ou adiamento de audiências e julgamentos vêm aumentando o tempo das pessoas em prisão preventiva. Eles colocam que os períodos de prisão provisória tornam os indivíduos especialmente vulneráveis por estarem refletindo sobre os possíveis resultados de seus casos. Nesse processo, angústias, incertezas e ansiedades tornam-se comum e podem ser intensificadas ainda mais pela imprevisibilidade da pandemia.

Outros fatores são mencionados no texto também, como a interdição de atividades recreativas e a diminuição de agentes prisionais em exercício.

Para finalizar este despretensioso texto, digo que me alinho a algumas das sugestões aventadas pelos autores para mitigação desse cenário – ainda que eu tenha uma posição resistente em prol de medidas desprisionalizantes. Conforme alegam, elementar é que os(as) presos(a) sejam rotineiramente informados sobre a pandemia e seus efeitos; tanto para que compreendam a importância das medidas restritivas como para que se enfatize o papel e a relevância que possuem para o restante da sociedade. Em linhas gerais, reforçar mais e mais como são sujeitos de direitos e que do Estado jamais merecem receber o abandono e o desprezo.


[1] Andreoli SB, Ribeiro SW, Quintana MIS, Higashi MK, Dintof AM. Estudo da prevalência de transtornos mentais na população prisional do estado de São Paulo [relatório científico final]. Brasília: CNPq; 2008.
[2] http://biblioteca.unisantos.br:8181/bitstream/tede/4461/2/Maira%20Mendes%20dos%20Santos%20Marques.pdf
[3] James DJ, Glaze LE. Mental Health Problems of Prison and Jail Inmates Washington: US Department of Justice, Office of Justice Programs, Bureau of Justice Statistics; 2006.

Espaço Refúgio 343: Anaís

Geralmente os momentos de virada são marcados por questionamentos, pra si, pros outros… pra si! “Amor, como vamos dormir?”. Essa foi a pergunta da venezuelana Anaís, com 4 filhos, outro na barriga, repleta de malas, enquanto olhava o marido nos olhos. Gabriel, seu marido, havia viajado para buscar emprego, enquanto ela cuidava da família que morava em um lugar alugado. O pagamento era feito com alimentos, mas com os preços das comidas cada vez mais altos, a família deixava de se alimentar ou se alimentava muito pouco para pagar pelo quarto onde viviam! 

Até que perceberam que ficariam sem teto e sem comida. Foi então que Anaís decidiu ir ao encontro do marido. Horas viajando até que chegaram na cidade de Santa Elena, às 3h da manhã. Pensem nisso, um lugar desconhecido, grávida, com outros 4 filhos e com as malas. Mas o choque mesmo foi o reencontro com seu marido Gabriel. Ele estava muito magro, abatido, roupas surradas… Foram até o local onde Gabriel trabalhava e dormia. Anaís descobriu que o marido dormia juntando duas pequenas mesas e colocava a pouca roupa que tinha, porque não tinha coberta e o frio estava intenso. Ele não recebia quase nada, que enviava para a família, e trabalhava até o esgotamento! A noite foi chegando, e ela olhando para os filhos e tudo ao seu redor, desesperada faz ao marido a pergunta: “Amor, como vamos dormir? Isso não é vida”. Foi com essa pergunta que decidiram vir para o Brasil. “Por um futuro melhor, lutar por uma vida, lutar por uma casa”. 

Desde janeiro, estão no centro de acolhimento São Vicente 2, onde o Refúgio 343 mantém operação em Boa Vista, Roraima. E agora são 7: o pequeno Samuel, que viajou na barriga da mãe, nasceu em solo brasileiro.

Por Débora Spitzcovsky e Murilo Meola
Espaço 
Refúgio 343 : A cada 15 dias, uma história real de alguém ou de alguma família venezuelana em situação de refúgio no Brasil.

 

 

DICA DA SEMANA

Recursos Desumanos

Seriado

A indicação vai ser a última série que devorei. A série francesa acompanha parte da vida de Alain, um homem desempregado aos 57 anos. Refém do subemprego e de tantas desilusões, ele parece ter um trabalho à vista quando tudo desanda completamente. Foi difícil completar essa frase sem que eu desse um spoiler. Mas saibam que a série é bem legal, com dilemas sociais relevantes, personagens complexos, diálogos interessantes e bastante drama.

COMPARTILHE COM ALGUÉM
Share on whatsapp
WhatsApp
Share on telegram
Telegram
Share on email
Email
Share on facebook
Facebook
Share on twitter
Twitter
Share on linkedin
LinkedIn
Share on whatsapp
Share on telegram
Share on email
Share on facebook
Share on twitter
Share on linkedin
COMENTÁRIOS

Carrinho

0

Nenhum produto no carrinho.

Tecle Enter para pesquisar e Esc para fechar