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Reprodução. The New Yorker

O que de conveniente pode ser extraído da crise do coronavírus

Venho estado cada vez mais convencida que o legado e as cicatrizes que o coronavírus deixarão serão responsáveis por um momento de virada de chave na biografia da humanidade. Crises historicamente transformam e reorientam o status quo e a dimensão desta em específico não fará com que ela fuja a isso. Em uma crise, ganhos e perdas podem coexistir na balança de saldos – mesmo que na de agora pessoalmente eu acredite que os danos serão bem mais protuberantes.

Jamais ignorando ou diminuindo todos os graves problemas que despontam, como endividamento, recessão, óbitos, xenofobia, super vigilância e aprofundamento de desigualdades (com a criação de outras), é preciso, talvez por um exercício mental de manutenção de sanidade, conseguir extrair leite de pedra. Projetar futuros possíveis que reinventem esse quadro e aproveitem, da forma como possível, a janela de mudança. Não agradecer ao desastre e nem relaxá-lo, mas reconhecer convenientes respostas que serão e são dadas a ele por nós.

A primeira que me salta aos olhos é o retorno da ciência ao debate público como algo a que todos(as) merecem se apropriar. Estamos revendo conceitos e posicionamentos sobre a sua importância. O que venho observando, a despeito de pontuais investidas negacionistas, é a esperança de saída da crise sendo muito depositada nos cientistas; é a “voz dos especialistas” sendo cada vez mais requisitada; é a ciência, dita aqui de forma ampla, para responder às lacunas trazidas pela COVID-19, parecer estar se democratizando, mudando abordagem e abrangência da divulgação dos resultados. Estamos, inclusive, aprendendo a respeitar o tempo da ciência, seja em seus processos de diagnose, seja nos de solução.

Além do mais, a mídia é fortalecida como canal informativo e agregador. Muito porque, no isolamento, e por estarmos cada vez mais aflitos por atualizações do estado da crise, ficamos mais dependentes da imprensa. Ao menos pra mim, o costume de ler notícias foi intensificado. Arrisco dizer também que pela quarentena estamos valorizando mais a convivência social e o contato humano, mesmo que tenhamos estimulado tantas redes e campanhas de solidariedade exatamente pelo distanciamento (e que tanta gente ouse ou precise burlar o isolamento).

As redes de proteção social também serão reestruturadas a partir do coronavírus. Como se fosse uma rememoração funcional, o Estado retomou certo protagonismo na construção de agendas, afastando ou adiando, mesmo que bem modestamente, as demandas particulares ao mercado. Igualmente pela crise, os gestores e políticos virtuosos são separados daqueles incompetentes; fica nítido o nível de preparo e instrução de cada perfil de liderança. Há uma esperança ainda que os governos fiquem mais preparados para situações de colapso dos sistemas de saúde pública. Por fim, conforme acredita a economista Monica de Bolle, com a crise possivelmente haverá uma reconstrução do multilateralismo, menos atrelado aos parâmetros do pós-guerra.

Acredito piamente que não se deve esperar colapsos para reagir a problemas, mas devemos saber lidar quando com os primeiros estivermos de frente. Todos estes levantamentos ainda podem morrer apenas como projeções e esperanças pessoais minhas e dos especialistas que nesse texto me inspirei, mas me darei ao luxo de fazê-las. Por um exercício de futurismo.

DICA DA SEMANA

"Ciência em Krakatoa"

Texto - Ed. 163 da Revista Piauí

A indicação da semana será a leitura do texto Ciência em Krakatoa do neurocientista e professor Sidarta Ribeiro na edição de abril da Revista Piauí. Na matéria, ele narra, por ser um profundo conhecedor do tema, um pouco da trajetória histórica do investimento e da evolução da ciência no Brasil. Sidarta desenvolve muito bem os motivos pelos quais ainda, apesar das projeções positivas como a que fiz no texto acima, “fazer ciência no Brasil é como ser astronauta em Krakatoa”. Pode ser acessado na revista física ou gratuitamente no site da revista.

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