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Reprodução: O Globo

É pelas vidas de milhares de meninas

“Ela apertava contra o peito um urso de pelúcia e só de tocar no assunto da gestação entrava em profundo sofrimento, gritava, chorava e negava a todo instante, apenas reafirmando não querer”.

Quem no domingo se manteve atento(a) ao que no mundo externo ecoava não pôde se privar do impacto daquele que foi o seu maior destaque: o triste caso da menina capixaba de 10 anos que, estuprada possivelmente pelo tio desde os 6, teve o seu procedimento de interrupção da gravidez amontoado por uma verdadeira estúrdia fundamentalista.

O relato que inaugura esta coluna, localizado na decisão do juiz Antônio Moreira Fernandes, da Vara da Infância e da Juventude de São Mateus (ES), que ordenou a interrupção, é de um dos profissionais que atendeu a menina. Ressalta-se: interrupção de uma gestação precoce e fruto de estupro. Por óbvio, a frase não dá conta nem de longe de dividir conosco todo o desalento, o trauma e a confusão que provavelmente percorrem a cabeça da criança, mas com
certeza ela consegue indicar um pouco da angústia e da gravidade da situação que se arvora.

A partir disso – da frase, da história, da divulgação, das manifestações e das repercussões – não há como não se comover. Da comoção, como expressão primária e genuína de um sentimento de compaixão, nascem, por consequência, outras sensações. Nasce a indignação. Nasce o repúdio. Nascem reflexões e ideais. E do processo de racionalização, nascem e consolidam-se convicções.

E, assim, num país que a cada hora 4 meninas de até 13 anos são estupradas[1] e que, por isso, registra ao menos 6 abortos por dia em garotas de 10 a 14 anos[2], torna-se cada vez mais difícil não estar convicta da completa absurdez do episódio recente.

Além dele nos advertir da infeliz ordinariedade estrutural dos abusos infantis no Brasil, nos convoca a reconhecer e a lidar com essa que é a nossa face mais fundamentalista, conservadora e intransigente. Uma face que não só elege e endossa figuras extremistas como Jair Bolsonaro, como está determinada a disputar na arena política e social as suas mais estapafúrdias e identitárias agendas.

O cenário está dado e não é nada animador. Que consigamos disputá-lo. Pela cumprimento do aborto legal. Pela descriminalização. Pela vida da mulheres. Pela vida de milhares de meninas.

___________________________
[1] Anuário Brasileiro de Segurança Pública de 2019.

[2] Dados tabulados pela BBC News Brasil no Sistema de Informações Hospitalares do SUS do Ministério da Saúde.

Espaço Letra Dura: Formas de voltar para casa

Formas de voltar para casa é narrado por este menino-homem que cresce em um Chile subjugado pela ditadura militar pinochetista e, agora adulto, rememorando seu passado, tenta dar sentido ao seu presente. Além disso, este mesmo narrador tenta finalizar o próprio livro, o qual mistura ficção e algumas de suas memórias de vida. Ainda que Zambra recuse o selo de “romance geracional” para o seu livro, ele consegue imprimir na obra, de forma muito elegante, uma série de elementos que forjaram o espírito de uma determinada geração chilena, aquela que nasceu e cresceu sob uma frágil aparência de normalidade sócio-política. É também genial a forma como o autor consegue enlaçar lindamente a história individual deste homem com a história de seu país. Passado e presente se sobrepõem, bem como a alienação própria da infância e a tentativa de significar o presente e aquilo que constitui sua vida adulta, dos seus relacionamentos ao seu ofício. 

Acho que todos nós, em algum nível, passamos a vida a buscar formas de voltar para casa: formas de entender porque somos como somos, porque aqueles que nos fizeram e criaram são como são. Formas de cruzar a literatura de nossos pais com a nossa literatura, enquanto filhos. Quem dera que todo acerto de contas com a nossa memória se desse tal qual a nostalgia doce, poética e consciente desse livro.

Por Bruna Bernhardt, administradora da página Letra Dura
 
DICA DA SEMANA

Betty: The Betty Broderick story

Seriado

O clique foi despretensioso e fui surpreendida pela qualidade da série. Baseada em fatos reais, ela narra o caso de Betty Broderick, uma estadunidense que comete um grave crime em San Diego. O triunfo da série pra mim não mora na reprodução dele ou do processo judicial, mas na maturidade com que conseguiram reproduzir a dinâmica de uma relação conjugal e do peso do machismo na estabilidade emocional de uma mulher. E conseguem fazer isso sem relativizar a barbaridade do crime em si. Trata-se, na verdade, da segunda temporada de Dirty John – que também vale muito ver.

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