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Reprodução. Zanele Muholi.

E como estão as trabalhadoras domésticas durante a pandemia?

Ao contrário do que o título desta coluna eventualmente possa induzir, não se trata aqui de adivinhar subjetivamente o que é ser uma trabalhadora doméstica durante a pandemia, nem de sociologicamente abordar essa complexa questão. Essa vivência e essa expertise definitivamente não detenho. A intenção do texto é bem menos ambiciosa. Busco apenas compartilhar algumas estatísticas sobre o tema (que há pouco me eram desconhecidas e imagino que para alguns também sejam) e, sobretudo, de aproveitar esse singelo espaço de voz que possuo para evidenciar dilemas da precarização do trabalho destas que, sem exageros, são um sustentáculo da estrutura social e econômica no país.

O que a morte do menino Miguel Otávio Santana da Silva, de 5 anos em Recife, tem de trágica tem também de desconfortavelmente sintomática. Suas condições e entornos falam muito. Falam sobre o Brasil. Falam sobre nossas idiossincrasias e disfunções como nação. Talvez tenha sido ela, inclusive, o estopim para que parcelas da sociedade começassem a enxergar o paralelo entre a pandemia e o trabalho doméstico. Seja como for, necessário é que se fale sobre.

Segundo pesquisa do Ipea em parceria com a ONU Mulheres, dentre formais e informais, o país registrou 6,1 milhões trabalhadoras(es) domésticas(os) em 2018, dos quais 70% não possuíam carteira assinada. A dianteira tomada pelo gênero feminino na frase anterior tem um motivo de ser: desse batalhão de trabalhadores, aproximadamente 5,7 milhões são mulheres e, dessas, 3,8 são mulheres negras. As trabalhadoras domésticas correspondem a quase 15% das trabalhadoras mulheres ocupadas (10% das brancas e 18,6% das negras).

Os impactos da COVID-19 atingiram com rapidez e de forma afiada a categoria. No trimestre até abril de 2020, se registrou a maior queda nos serviços domésticos desde 2012 (IBGE). Ao todo foram 727 mil pessoas que não são mais ocupadas na classe de serviços domésticos (IBGE).

A perda do posto de trabalho é um dilema que por mais dramático que seja ainda é mais fácil de ser visualizado, inclusive de ser computado. São as precarizações e opressões mais intangíveis a que estão submetidas estas trabalhadoras que aprofundam esse cenário cruel. Cenário que é intensificado com a crise do coronavírus. Na pandemia, além de estarem sujeitas a maior sobrecarga de trabalho e de tensão, são também obrigadas a enfrentar um trajeto de exposição ao vírus para acessar o trabalho e de entrar em contato com pertences dos patrões que podem vetorizar o contágio. E tudo isso, sob a pressão mental, até autoculpa, de possivelmente estarem levando o vírus para suas casas. Apenas para se citar alguns exemplos.

Há quem diga que devido à quarentena as pessoas, em especial os homens, começaram a valorizar mais o trabalho doméstico. Eu, com o ceticismo que me integra, acredito que ainda foi pouco. O reconhecimento do quão dispendioso e sério é o trabalho no lar não significa necessariamente um aceno de progresso para as domésticas desse país. Infelizmente.

Mas se uma mudança social que extinga essa realidade para as trabalhadoras domésticas parece estar longe de ser alcançada, haja vista tratar-se de problema que desnuda nossas raízes mais estruturalmente coloniais e racistas, não se pode olvidar, contudo, que nesse percurso direitos básicos lhe devem ser garantidos. A começar, durante a pandemia, pela manutenção de renda básica, por mais de 3 meses, como um básico e frontal direito ao isolamento das trabalhadoras domésticas no Brasil

DICA DA SEMANA

Que horas ela volta?

Filme

Não teria como indicar outro filme senão esse. Se em condições normais de temperatura e pressão eu já costumo indicá-lo, imagina se não seria diferente numa coluna que trata especificamente da questão. “Que horas ela volta?” é um retrato muito acertado do Brasil. Desse Brasil que aceita a trabalhadora doméstica como “quase da família” ao passo que lhe acomoda num lugar apartado, como num elevador de serviço. Quem já viu sabe do que falo, quem não viu, por favor, corre pra ver. E ah, Regina Casé está brilhando! Vale muito a pena.

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