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via www.sxc.hu Fonte: Agência Câmara de Notícias

As vítimas silenciadas pela pandemia: da ponta ao cabo da violência contra a mulher no Brasil

Que a pandemia produziu e ainda produz diversos efeitos sociais, isso há tempo já não é novidade. O que cabe, naturalmente, é pouco a pouco ir se diagnosticando quais de fato são eles e como se manifestam. É o caso, portanto, de compreender como a dinâmica da endêmica violência contra as mulheres no
Brasil manifesta-se num cenário onde o isolamento e a maior sobrecarga dos serviços estatais se tornam rotina.

Um recente levantamento divulgado pelo Monitor da Violência (iniciativa do G1 com o Núcleo de Estudos da Violência da USP e o Fórum Brasileiro de Segurança Pública) pode nos conduzir a algumas conclusões.

A grande constatação, a priori, é a seguinte. No 1º semestre de 2020, mais mulheres foram assassinadas no país, enquanto houve menos registros de estupros e agressões. O aumento foi de 2% nos homicídios de mulheres e de 1% naqueles enquadrados como feminicídio; enquanto a redução foi de 11% para as lesões corporais e de 21% e 20% para os estupros e estupros de vulneráveis, respectivamente.

As tendências inversas parecem ter razão para existir. Enquanto a notificação de homicídios é classificada como mais segura, uma vez ser fruto tanto do registro nas instituições de segurança pública como nas de saúde, as lesões e os estupros para serem registrados ainda ficam reféns da voluntariedade da vítima para denunciar. O ato da denúncia, como é de se esperar, é condicionado a variáveis que evidenciam a maior ou menor segurança da mulher em prestar a queixa. Numa pandemia, onde muitas vítimas estão confinadas com seus agressores, quando pode estar limitado o acesso às redes de apoio, e a locomoção é mais restrita (inclusive por transporte público), bem como os serviços públicos parecem estar menos acessíveis, a contração dos dados parece ser no mínimo provável.

A redução dos índices, dessa maneira, não deve nos induzir a acreditar na diminuição real dessas violações não letais. De forma distinta, deve-se poder olhar o quadro com o ceticismo de que estão apenas subnotificadas. Para sustentar a desconfiança, Jackeline Romio, pesquisadora do assunto pela USP, coloca que: “O homicídio é a ‘ponta’ da violência. Então, quando você vê que os homicídios aumentaram, espera-se que outros tipos de violência, que são o processo até essa morte, também tenham aumentado”.

A subnotificação é ainda maior para as mulheres negras, já que são 75% das vítimas de homicídios, contudo apenas 50% nos registros de estupros e lesões corporais. Os traços do racismo estrutural brasileiro aliam-se às limitações advindas da pandemia.

Os números não tranquilizam. Muito pelo contrário. É excruciante dia após dia sermos apresentados(as) a esta dolorosa realidade. Mais uma diagnose triste de ser encarada. O Brasil, que ocupa o 5º lugar entre aqueles que mais matam mulheres (ACNUDH) e o 1º quando comparado com aqueles que compõem a OCDE, ainda é um terrível lugar para se ser mulher e um ainda pior para se ser mulher negra.

Espaço Letra Dura: Ponciá Vicêncio

Conceição Evaristo é uma autora mineira nascida em 1946. De origem humilde, construiu sua trajetória acadêmica no Rio de Janeiro, trabalhando também como professora na rede pública de ensino. Apesar de ter iniciado na literatura em 1990, publicou sua primeira obra solo apenas em 2003, tendo financiado integralmente esta primeira publicação. Ponciá Vicêncio havia sido escrita por ela em 1993 mas, como conta a autora, em função das muitas dificuldades que impedem mulheres – especialmente negras – de publicar, foi apenas em 2003 que a obra veio a público.

Neste romance de formação, é narrada a história de Ponciá Vicêncio. Pelo fato da obra constituir-se em uma narrativa não-linear em terceira pessoa, costurando memórias e vivências de Ponciá que envolvem não apenas a sua história mas também a de sua família, aquilo que é contado em termos subjetivos se expande e reflete o passado e o presente do Brasil colonial e escravagista. Apesar da infância simples e alegre, Ponciá ingressa na vida adulta em profunda crise com sua identidade. Ao ir tomando noção do mundo que a rodeia, das limitações experienciadas pela realidade em que está inserida, um vazio existencial toma conta da sua vida. 

No decorrer da narrativa, o livro nos permite acessar as ausências e os vazios que constituem a personagem, os quais dividem espaço com as memórias que ela corajosamente conseguiu construir no decorrer da sua trajetória. Por tudo isso e um pouco mais, esse não é um livro fácil. Seu valor está, no entanto, em inserir-nos na tristeza e na ternura dessa história, indiscutivelmente transformadora para quem a lê – e certamente para quem a conta. 

Por Bruna Bernhardt, do @letra.dura 

DICA DA SEMANA

I may destroy you

Série - HBO

Incrível! Esse é o primeiro adjetivo que me vem à mente para falar de “I may destroy you”. A série da HBO – criada, escrita, produzida, dirigida e atuada por Michaela Coel – é impecável. Aliás, o que essa mulher não é capaz de fazer bem? O seriado fala sobre cotidiano, traumas, conflitos, violências e vínculos. Isso tudo com muito drama, humor, um elenco majoritariamente não branco, atuações naturais e diálogos interessantes. Sem rotas esperadas ou interações clichês é sobretudo um retrato muito autêntico das relações modernas. Mas aviso: ainda que saiba usar do bom humor, não é necessariamente uma série leve. 

 
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