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Projeto de lei propõe tortura contra mulheres

Vou começar o texto com um aviso importante: a coluna desta semana é um desabafo e espero que você termine a leitura dela tão indignadx quanto eu estou enquanto escrevo.

Quem me acompanha por aqui, ou pelas redes sociais, percebeu o meu sumiço nos últimos tempos.

Pois bem.

Estou com suspeita de Covid-19, totalmente isolada e com alguns sintomas (medicada e com acompanhamento médico, logo estarei no ritmo de sempre!).

Optei por me distanciar um pouco para conseguir me recuperar mais rápido e também estou com bastante dor.

Por isso tudo que tinha decidido sequer escrever minhas colunas semanais (tanto semana passada, quanto esta semana).

Acontece que o Brasil não deixa. Acontece que o patriarcado também não deixa.

Semana passada repercutiu no país inteiro a situação da criança de 10 anos que foi violentada pelo tio.

Fiquei inerte. Não me manifestei. Não teci comentários.

Ainda é necessário um esforço grande para que eu consiga falar sobre estupro e como estou fragilizada resolvi me esconder na toca!

Semana passada as informações sobre aquela menina e sobre o local no qual seria realizado o procedimento do aborto foram vazados por uma mulher.

Fiquei inerte. Não me manifestei. Não teci comentários.

Continuei tentando me manter numa bolha aqui em casa.

Semana passada a menina de 10 anos que foi estuprada pelo tio, e que está dentro da estatística brasileira de 4 meninas de até 13 anos estupradas por dia (segundo o Anuário Brasileiro de Segurança Pública de 2019), foi obrigada a se esconder no porta malas de um carro, junto de dois ursos de pelúcia, para conseguir ingressar no hospital onde o procedimento seria realizado.

Fiquei inerte. Não me manifestei. Não teci comentários.

Mas chorei. Chorei por ela, chorei por cada uma das 180 mulheres estupradas por dia no Brasil, chorei pelas minhas amigas que passaram por violências parecidas, chorei por cada mulher que, infelizmente, passará por violências desse tipo e chorei por mim.

Ainda assim optei por não escrever sobre isso. Não tive forças.

Meu coração acalmou um pouco quando li a coluna da @iarammlopes (que você pode ler aqui) tratando sobre o tema.

E hoje, sexta-feira 21 de agosto às 15 horas, bem depois do horário viável para postagem desta coluna, leio a seguinte reportagem no G1: “Projeto de lei prevê que vítimas de estupro assistam imagens de aborto para desistir de interromper gravidez no RN” (leia a reportagem completa aqui).

E então o esforço para a escrita tornou-se muito menor que o esforço para me manter silente diante deste show de horrores.

O projeto de lei, que foi retirado pelo próprio autor, propunha que mulheres fossem submetidas a tortura (vamos dar nome certo às coisas) nos casos de aborto legal (gravidez decorrente de estupro; casos de anencefalia do feto; quando há risco para a gestante).

A proposta era fazer com que a mulher ouvisse os batimentos cardíacos do feto, que recebesse informações detalhadas sobre aborto, assistindo imagens inclusive e mais alguns “tratamentos psicológicos” prévios ao procedimento.

A retirada do projeto da pauta se deu depois da repercussão negativa que aconteceu em razão do caso da menina de 10 anos do Espírito Santo.

O desesperador nesta situação é o fato de um projeto com este conteúdo ter existido. O assustador é verificar que um deputado se sentiu legitimado a propor a prática de tortura contra mulheres que já estão profundamente vulneráveis e fragilizadas. O triste é perceber que as marcações sobre os nossos corpos estão se avivando nos últimos tempos. Tempos sombrios e que estão demonstrando que os poucos avanços que temos são palpavelmente frágeis.

Nós mulheres somos, desde muito tempo, resistência. Seguimos sendo resistência. Seguimos sendo luta. Seguimos apoiando umas às outras. Seguimos fazendo uma barreira feminista na frente de hospitais para tentar garantir que uma CRIANÇA tenha sua vida e seu corpo respeitados (mesmo depois de tanta violência).

E, ainda mais em tempos de ódio, precisamos seguir resistindo. Precisamos denunciar projetos de lei como este (que, ainda bem, não será votado). Precisamos falar sobre o quão dolorosa pode ser a experiência de ser mulher (e aqui é importante lembrar que essas dores estão imbricadas com marcadores de opressão específicos de cada uma, individualmente). Precisamos firmar o corpo, receber o impacto e partir para a luta.

Estou cansada. Fisicamente, emocionalmente e socialmente. Mas tento usar situações e notícias como a desse projeto de lei como impulso, como um lembrete (de muito mau gosto) de que não há tempo para silêncios diante do patriarcado, que continua nos matando todos os dias.

DICA DA SEMANA

Ep. 5 Cultura do Estupro - Mulherão da Porra

Eu e a Thaise Mattar Assad gravamos um episódio do Mulherão da Porra sobre a Cultura do Estupro. Episódio forte, difícil e que tem muito de nós.

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