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O estranho caso das mulheres cujo corpo está lá – mas sempre para o outro

“Eu também sou a filha de alguém. (…) Mas ter uma filha não é o que torna um homem decente. Ter uma esposa não torna um homem decente. Tratar as pessoas com respeito e dignidade torna um homem decente”. Esse é um trecho extraído do potente discurso feito pela Congressista Alexandria Ocasio-Cortez, no Capitólio, há quase duas semanas, em reação aos insultos misóginos que lhe foram proferidos por um colega republicano, Ted Yoho. Após acalorado debate acerca da criminalidade e desemprego em Nova York, Ted Yoho, gritando e com o dedo em riste, nos corredores do Capitólio, chamou Ocasio-Cortez de “repugnante, louca, surtada e perigosa” (disgusting, crazy, out of her mind and dangerous). Não bastassem tais insultos, quando Ocasio afastou-se, na presença de repórteres, Ted Yoho chamou-a de “vadia do caralho” (fucking bitch).

Cortez teria cogitado relevar a agressão, uma vez que – conforme destacou em seu discurso – ser mulher [e especialmente mulher porto-riquenha] nos EUA significa, de forma culturalmente impositiva e por uma questão básica de sobrevivência, aguentar uma vida de insultos semelhantes a esses, sobretudo no ambiente da política, extremamente hostil para nós mulheres. No entanto, subsequentemente ao incidente, em vez de assumir a responsabilidade pelas ofensas endereçadas à Ocasio-Cortez, o republicano Ted Yoho desculpou-se apenas pela “forma abrupta da conversa”, mas negou o uso dos termos misóginos alegando que é extremamente consciente no uso da linguagem uma vez que “tem esposa e duas filhas”.

O fato de Yoho ter usado sua esposa e filhas como “escudos“, em uma tentativa de escapar à responsabilização, foi um ponto de inflexão para que AOC decidisse denunciar publicamente os insultos sofridos. E sua fala [extremamente potente e visivelmente marcada pelas dores do ser mulher] transformou-se em um excruciante retrato da realidade enfrentada por mulheres na política.

Ocasio ainda ressaltou: “Yoho mencionou que ele tem esposa e duas filhas. Sou dois anos mais nova que a filha mais nova de Yoho. Também sou filha de alguém. Felizmente, meu pai não está vivo para ver como Yoho tratou a filha dele. (…) Estou aqui porque tenho que mostrar aos meus pais que sou filha deles, e eles não me criaram para aceitar abusos de homens (…) Quando você faz isso com qualquer mulher, o que Yoho faz é permitir que outros homens façam isso com as filhas dele (…) Ao usar esse termo, na frente da imprensa, ele dá permissão para usarem contra sua esposa, filhas, mulheres em sua comunidade, e estou aqui para defender que isso não é aceitável”.

A despeito dos avanços dos movimentos feministas, dos debates firmados, da vasta literatura, das desconstruções que nós mulheres temos escavado [e percebam o uso proposital e simbólico desta palavra] diariamente, homens ainda se sentem autorizados a agredir e violentar mulheres, seja de maneira física, verbal ou através da imposição e reprodução de regras de diferenciação (entre o masculino e o feminino) que se inscrevem no mais íntimo dos corpos. Essas prescrições e proscrições arbitrárias nos confinam simbolicamente, enquanto mulheres, a estruturas objetivas e subjetivas de dominação, privando-nos de uma experiência plena [disponível para experienciação exclusivamente aos homens].

A dolorosa vivência da Congressista norte-americana não é novidade por aqui. Incontáveis casos e experiências poderiam ser mencionados. Quem não se lembra do marcante episódio em que o Presidente eleito Jair Bolsonaro, à época deputado, agressivamente dirigiu-se à deputada federal Maria do Rosário, falando “Jamais iria estuprar você, porque você não merece”, chamando-a, ainda, de “vagabunda”.

Essa semana nós (Paola Bianchi Wojciechowski e Fernanda Pacheco Amorim) decidimos escrever nossas colunas [quase um protesto] a quatro mãos. Talvez mesmo como gesto simbólico de união de forças. Talvez porque, após os fatos ocorridos essa semana com a Advogada e Professora Mariana Maduro, eu, Paola, pensei em escrever sozinha, mas – tomada por cansaço e desesperança – precisei procurar socorro e lume na Fernanda. Quem sabe porque nós formamos um laço bonito [forjar laços com mulheres sensacionais é essencial para desatar os nós da vida]. De todo modo, nós seguimos travando constante diálogo – seja na vida acadêmica ou em nossa amizade – a respeito das violências simbólicas e físicas sofridas pelas mulheres, inclusive no âmbito jurídico profissional e acadêmico. E é isso que tem nos permitido seguir em frente apesar de tantas notícias [repetitivas, diga-se de passagem] sobre misoginias cotidianas das quais falamos e as quais combatemos há tanto tempo.

Para quem não acompanhou o caso ocorrido essa semana na cidade do Rio de Janeiro, a Professora e Advogada Mariana Maduro estava na Lagoa Rodrigo de Freitas praticando ioga na companhia de uma amiga, quando – sem o seu consentimento – foi filmada pelo empresário Ricardo Roriz. O empresário e um vendedor ambulante identificado apenas como “Celsão” falavam sobre a vítima e seu corpo, objetificando-a e fazendo gestos de cunho sexual. Roriz publicou o vídeo em suas redes sociais – que conta com mais 300 mil seguidores – em decorrência dessa exposição, o vídeo chegou ao conhecimento da vítima.

Mariana é filha de alguém. Nós somos filhas de alguém. Isso nunca protegeu mulher alguma de ser objetificada, subestimada, sexualizada, tratada com condescendência ou desprezo. Mas o poderoso discurso feito pela Ocasio-Cortez nos fez pensar: se nossos pais, irmãos, namorados, companheiros, amigos tomassem conhecimento desses relatos diários de agressões – por vezes veladas/simbólicas, por vezes escancaradas e físicas – será que eles se reconheceriam nos agressores?

Chamamos atenção para isso pois queremos que os leitores e leitoras percebam: quando atos violentos contra a mulher vêm a público – sobretudo quando atos criminosos são praticados -, prontamente, os demais homens manifestam repúdio, buscando distanciar-se desses atos extremos, dos quais o feminicídio e o estupro talvez sejam expressão máxima. É assim que “o estuprador”, por exemplo, torna-se o bode expiatório de toda a violência estrutural, simbólica e física que as mulheres sofrem dia a dia.

No entanto, ao assim agir, a sociedade construída sobre o primado da masculinidade exime-se de perceber o elo entre o visível [esses atos de violência que tornam-se públicos] e o invisível [a violência simbólica, a objetificação, o menosprezo, a dissimetria radical quanto às expectativas sociais em torno do corpo da mulher, as regras de diferenciação intimamente inscritas no mais íntimo do corpo feminino]. É esse invisível que compõe o tecido social, regendo pensamentos e práticas voltadas a enxergar a mulher e seu corpo como incessantemente expostos aos outros, esperando a objetivação que só se opera pelo olhar e narrativas alheias. E sem o rompimento deste tecido e a tecelagem de novas tramas a manutenção de pressupostos culturais é inevitável. O reconhecimento das microviolências diárias não é simples, mas são elas que constituem a base dessa estrutura opressora.

Percebam como a sociedade repudia o estupro, mas, ao mesmo tempo, como na própria condenação e manifestação de abjeção ao estupro se esconde uma estrutura objetiva e subjetiva de dominação, pois qual é a primeira coisa que nós fazemos com “o estuprador”? Ele é lançado em uma cela para que possa ser transformado em… “mulherzinha”!

Não podemos nos esquecer jamais que, em uma pesquisa realizada pelo DataFolha, em 2016, um terço da população concordou com o raciocínio segundo o qual o comportamento da vítima justifica o crime de estupro, inserido nessas duas frases – causadoras de calafrios: “A mulher que usa roupas provocativas não pode reclamar de ser estuprada” e “Mulheres que se dão ao respeito não são estupradas”. Eis aí, escancarado, o liame entre a violência (física, sobretudo de cunho sexual) e as regras diferenciais a que estamos sujeitas.

E, à sombra de tudo isso, volta e meia homens descobrem – com assombro e desconforto – que mulheres têm corpos agentes. Professoras têm corpo, acadêmicas, advogadas, senadoras, deputadas, presidentes e médicas todas têm um corpo. E esse corpo feminino [quando tenta ser ativo e agente, resistente à sujeição] provoca dissonância na sociedade, eis que contrasta com a ideia de que corpos ou estão lá para o entretenimento masculino ou não são reconhecidos como existentes. O corpo da mulher é sempre um incômodo. Vestido é vestido demais. Nu é impróprio. Qual é a justa medida da vestimenta feminina? De quem é a régua?

Pois bem. É possível lembrar da Portaria nº 05/2017 da Direção do Fórum da Comarca de Cambará-PR, por meio da qual a Juíza, diante da “necessidade de regular a fluência do serviço forense e não se criar situações de desconforto, resolveu proibir o ingresso nas dependências do Fórum de pessoas que se achassem “vestidas com trajes incompatíveis com o decoro e a dignidade forenses”, considerando-se como tais os trajes femininos: “a) Com decotes profundos a ponto de deixarem mais da metade do colo dos seios visíveis; b) transparentes a ponto de permitir entrever-se partes do corpo ou peças íntimas; c) Sem alças; d) Que deixem a barriga ou mais de um terço das costas desnudas; e) Do tipo shorts, ainda que com o uso conjugado de meias calças; f) Do tipo saia que não cubra pelo menos 2/3 (dois terços) das coxas; g) Do tipo chapéu, gorro, boina ou boné.”

Nós não ignoramos que o âmbito jurídico seja cercado de formalismos, sisudez, restrições e confinamentos para todos os gêneros. No entanto, a métrica evidencia como, para as mulheres, subjacente a esse formalismo há usualmente a assimetria violadora do uso/gozo do próprio corpo. A mão que segura a régua é mais pesada para nós mulheres.

Daí porque, na nossa visão, um dos papéis de maior relevância do homem na luta pela tão almejada equidade social [no caso deste escrito especificamente equidade de gênero] seja insurgir-se – especialmente entre outros homens, não só em face da violência visível, aparente, pública, mas daquela que acontece de maneira velada, furtiva, clandestina. Aquela que ocorre, por exemplo, em grupos de Whatsapp formados só por homens. E, no fim, se falharem nessa tarefa [de respeitar a mulher como corpo agente/ativo, corpo-em-si-mesmo], então, tentem pelo menos lembrar que nós também somos filhas de alguém.

Feliz dia dos pais!

DICA DA SEMANA

A dica cultural da semana não poderia ser outro vídeo, senão o do discurso feito por Alexandria Ocasio-Cortez, imponente e excruciante [mas ao mesmo tempo um alento]. 

 
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