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Há um genocídio sistemático e histórico acontecendo no mundo

Em pleno 2020 eu fui estuprada.

E a minha história está longe de ser a única. Em pleno 2020 (até a data de hoje) aproximadamente 23.220 mulheres foram estupradas somente no Brasil, que tem uma média de 180 (CENTO E OITENTA) estupros por dia segundo o 13 Anuário Brasileiro de Segurança Pública, divulgado em setembro de 2019.

Em 81,8% dos casos de violência sexual a vítima é mulher, dentre essas 50,9% eram negras e 53,8% tinham até 13 anos de idade. 4 crianças são estupradas POR HORA, no Brasil. E esses são dados oficiais, há que se considerar a enorme cifra oculta relacionada às violências sexuais.

Em resumo, os números passaram de alarmantes para genocidas.

Mas, Fer, genocídio não é o extermínio de um povo? Você não está exagerando?

Pesquisando no Google a palavra “genocídio” a terceira definição que aparece é a seguinte:

3. Aniquilamento de grupos humanos, o qual, sem chegar ao assassínio em massa, inclui outras formas de extermínio, como a prevenção de nascimentos, o sequestro sistemático de crianças dentro de um determinado grupo étnico, a submissão a condições insuportáveis de vida etc.

Posso afirmar, sem medo de estar cometendo qualquer equívoco, que a sensação de vulnerabilidade constante que temos enquanto mulheres expostas (cada uma com sua singularidade) a essa cultura patriarcal, violenta e que usa o estupro como a forma mais cruel de subjugação é absolutamente insuportável.

Em 2016, o estupro foi reconhecido como crime de guerra pelo Tribunal Penal Internacional no caso do ex vice presidente da República Democrática do Congo. A Câmara de Julgamento deste caso foi presidida pela juíza brasileira Sylvia Steiner.

No livro O Harém de Kadafi é relatada a utilização do estupro como regra nas guerras travadas pela Líbia. Estupro das mulheres, crianças e homens para arrancar-lhes, essencialmente, a dignidade.

Cada caso é único, cada vivência afeta a singularidade de formas distintas, mas os relatos sempre são muito constantes no sentido de que o estupro é forçar a despossessão do corpo alheio.

Quem me acompanha, seja por este espaço, seja pelo Instagram, sabe que estudo, falo, debato e escrevo sobre feminismos e violências faz algum tempo. Já li muita coisa, já ouvi muita coisa e já escrevi muita coisa. Mas é impossível mensurar a dor que se sente quando alguém tenta arrancar de nós a dignidade sexual, a dignidade enquanto ser humano e, principalmente, a posse, o uso e o gozo do próprio corpo.

Em concreto, a única “coisa” que temos somos nós mesmas. Um estupro é uma afirmativa violenta de que não temos nada, que sequer somos algo. E o vazio pode ser desesperador.

Não escrevi esta coluna como um discurso vitimista, apesar de ser vítima; não escrevi esta coluna esperando que sintam dó de mim, apesar de acreditar que um olhar empático é fundamental nesses casos; não escrevi esta coluna para chocar ninguém com a minha história, apesar de os dados serem chocantes e de eu ter virado estatística.

Escrevo para reconhecimento, pois saber que há outras pessoas que entendem nossa dor é essencial para, juntas, aprendermos a lidar com ela.

Eu, em pleno 2020 e junto de milhares de outras mulheres, fui estuprada. E falar sobre isso é retomar a posse da minha história, da minha narrativa e de mim.

Há um genocídio contra nós mulheres, contra nossos corpos, acontecendo no mundo. Mas seguimos juntas, sempre juntas, lutando, falando, debatendo e nos posicionando contra essa sociedade que acha que discurso de feminista é mimimi.

Contem comigo!

Fonte. Arquivo Pessoal.

Meu corpo, minhas tattoos!

Estou lidando com toda essa situação de muitas formas. Uma delas é a escrita. Reproduzirei aqui um texto que coloquei no meu Instagram, bem como a foto que está lá, para que o contexto inteiro seja entendido.

 

Há trechos da nossa história que deixarão marcas.

Algumas dessas marcas serão superficiais, pequenas, e sumirão em questão de dias.

Outras marcas serão tão profundas e tão intensas que deixarão cicatrizes enormes.

Muitas vezes essas cicatrizes nos lembrarão momentos dolorosos, fatos que não queremos recordar nunca. Tentaremos ignorá-las. Fingiremos que são marcas de nascença, que não estão ali, que aquilo nunca aconteceu.

Mas a memória é incontrolável e as cicatrizes estarão sempre presentes, nos rondando.

Minhas cicatrizes estão espalhadas pelo corpo. A maior estava no braço. Enorme. Profunda. Audível.

Optei por lembrar da existência dela da maneira como escolhi. Tatuada. Reforçando que há uma parte da minha história que estará sempre envolta por arames farpados, guardada por uma dor que se insere na carne, visceral! Mas lembrando que, mesmo ao redor do arame, a vida floresce e segue.

Tatuar é um dos atos mais fortes de posse sobre o próprio corpo. Gravar em si aquilo que se quer. Gravei parte da minha história. Gravei uma parte que me lembrará sempre que há em mim uma cicatriz, mas que essa cicatriz não me define. Que posso, a partir dessa marca, fazer e ser arte.

As feridas, ainda recentes, vão cicatrizando aos poucos. Espero que criem casquinha junto da tatuagem. E eu vou me retomando dia a dia. 

Cada uma lida com as cicatrizes do seu jeito. Eu continuarei tatuando, continuarei sentindo, continuarei olhando para as minhas marcas, continuarei me acolhendo, continuarei falando e continuarei escrevendo.

Até o dia em que quase (quase mesmo) esquecerei que a ferida, que originou essa cicatriz, existiu.

DICA DA SEMANA

P.U.T.A. - Mulamba

A coluna desta semana está intensa e a dica não poderia ser diferente.

A música P.U.T.A. do grupo Mulamba é dolorosa de ouvir, mas absolutamente necessária.

Nossos corpos são nossa pressa!

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