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Photo by Herbert Goetsch on Unsplash

O “homem” bom não chora mais

33 anos. 3 filhos.
O homem bom não chora mais.
Silenciou-se o pranto.
O homem simples de voz embargada, outrora temeroso, agora não teme o processo penal.
Sentença cumprida.
Sem contraditório. Sem ampla defesa. Sem duplo grau.
Cumprida.

O homem bom me advertira: “Doutor, não fui eu!”.
E eu sabia. Disse que “não importava”, mas, no fundo, eu sabia.
Acho que a gente sempre sabe. Ou sente que sabe.
Mas eu sabia.

Não importava para o processo. O processo não se ocupa de verdades “propriamente ditas” senão de verdades (impropriamente) reditas, escritas.
Verdades em “loop”.
Infinitas.

Cheguei a escrever aqui, nesta mesma coluna, contando a estória daquele homem bom, que

“O sistema de justiça criminal é uma tempestade em oceano aberto que a tudo engole e a tudo silencia. Ecoava na minha cabeça a resposta que dei ao homem, “… isso não importa”. Importava.
Para ele, nada naquele momento, no mundo, importava mais. Mas para o sistema, não importa. Para o processo penal, não importa. A verdade que ele trazia no peito não evitara, por si só, o imbróglio, o desgaste, o desgosto, a angústia.
E de tanto operar as manivelas dessa titânica máquina, nos acostumamos com o drama alheio. O ato é simplório. O risco jurídico, parco, embora tangível. Mas para o outro é a tormenta. E a tormenta é o sintoma. É o que volta a nos assombrar, somatizando no corpo imenso do sistema o drama inaudito de tantos.”


E a angústia ressoou no corpo.
Fulminante.
Fatídico.
Fim.

– “Doutor, meu filho morreu de tristeza. Aquela carta que matou meu filho…”

As palavras daquela mãe (se referindo à intimação) se tatuaram na minha alma, indeléveis.

A verdade do homem bom importava, sim! Para ele. Para mim.
E deveria importar, também, para todos os personagens dessa tragédia grega que é o processo penal.


Dragado para a persecução penal, inadvertidamente, indevidamente, o homem bom não resistiu.
Angustiou-se até o fim.
Como disse a mãe: “morreu de tristeza”.

O homem bom não chora mais.
A mulher já não o acolhe; o filho já não vai nos braços.
O pranto perdura nos olhos da viúva, dos órfãos, da mãe que sobrevive ao filho.

“Eu sou um homem bom doutor…”

Eu sabia, meu amigo…
Eu sabia.

*Este texto é uma homenagem à memória de um homem bom cuja trajetória se encerrou prematuramente. Deixou esposa, três filhos e a evidência de que o processo penal é, de fato, um drama que, como disse Ariano Suassuna n’O Auto da Compadecida, “iguala tudo que é vivo num só rebanho de condenados”.

DICA DA SEMANA

The Confession Tapes

Documentário Netflix

Documentário sobre as delicadezas e desafios epistêmicos de confissões e a intrincada relação entre a prova judicial e a verdade.

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