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Photo by Sasha Freemind on Unsplash

Eu sei, mas não devia.

“A gente se acostuma a morar em apartamentos de fundos e a não ter outra vista que não as janelas ao redor. E, porque não tem vista, logo se acostuma a não olhar para fora. E, porque não olha para fora, logo se acostuma a não abrir de todo as cortinas. E, porque não abre as cortinas, logo se acostuma a acender mais cedo a luz. E, à medida que se acostuma, esquece o sol, esquece o ar, esquece a amplidão.”

Marina Colasanti eternizara, no escrito de 1972, a “mecânica anestésica” que, não raro silenciosamente; não raro incentivada socialmente ou endossada pelo silêncio moral médio conveniente, cuida de acomodar os incômodos ao nível do sustentável.

“Não está bom, mas… vá lá!” 

“Agora já piorou um pouco… mas ainda assim…”

“É, de fato incomoda. Se bem que…”

E assim a vida se assenta em bases erodidas, camufladas na estética de uma conformidade oca, um gozo angustiante que denuncia a renúncia do que poderia ter sido, mas de não-ser em não-ser acaba, amiúde, cedendo lugar à disjunção entre o fenômeno e a potência.

Dito de outro modo: tendemos a ficar, demasiado fácil, satisfeitos com o “quase”.

A gente se acostuma. 

Não devia (e assim o sabe)! Nada obstante, se acostuma.

A gente se acostuma a admitir acusações ineptas como chancelas a investigações lacônicas, quando não fantasiosas ou escancaradamente manipuladas.

A gente se acostuma à paridade de armas como mito; como metafísica que não se sustenta ao primeiro olhar, da dogmática do processo à arquitetura dos tribunais.

A gente se acostuma a ler o que está escrito e entender que se dá de ombros; que o cross examination não se aplica em toda parte; que o juiz pode ser “combatente”; que o reconhecimento pessoal pode ser feito como quiser a autoridade policial; e que a prisão não deveria ser regra mas importa mais a ordem pública, que a gente não sabe muito bem o que é (e “eles” também não sabem, mas…).

A gente se acostuma, enfim, com o “porque sim”.

Marina diria: “A gente se acostuma para poupar a vida. Que aos poucos se gasta, e que, gasta de tanto acostumar, se perde de si mesma.”

A gente se acostuma à luz da fogueira, mesmo que indique o vindouro tormento.

E a legalidade civilizatória ruma ao embrutecimento. Míngua a democracia.

Porque a gente se acostuma, mas não devia.

Photo by Hunters Race on Unsplash

Indispensável à administração da Justiça

E sobre não se acostumar, é preciso que tenhamos a real dimensão das instituições como peças fundamentais para a sustentação de um Estado Democrático. Entre elas, goste-se ou não, a advocacia. 

Da violência discursiva ou contra as prerrogativas profissionais de há muito corre a notícia, infelizmente. Tem preocupado, todavia, o desbordo para uma investida violenta não apenas sobre as prerrogativas da advocacia, mas também sobre os corpos das advogadas e advogados, surpreendidos, com crescente frequência, por abordagens policiais truculentas e arbitrárias.

E com isso, ninguém se acostuma!

A advocacia não é um câncer. A advocacia, ao revés, articulada republicanamente no Estado de Direito, é a única força capaz de conter a metástase da truculência que ameaça a democracia.

 
DICA DA SEMANA
Por Adorocinema.com

Sobral – O homem que não tinha preço

Filme

O filme de Paula Fiúza é um retrato biográfico da vida de Heráclito Fontoura Sobral Pinto (1893-1991), enunciador da frase célebre que bem resume o espírito que clama por resgate nos tempos atuais: “A advocacia não é profissão de covardes!”

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